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Uma agenda possível pós-pandemia

É importante que o País decida se vai ter ou não papel mais ativo no mundo em rápida transformação

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 05h00

A pandemia imporá mudanças nas agendas econômica, social e institucional do País. Uma nova pauta de prioridades será exigida das autoridades públicas. Mas é difícil de imaginar medidas articuladas e consequentes, considerando a negligência com a gravidade da pandemia desde seu início. Uma sucessão de ações irresponsáveis geradas nos altos escalões da cadeia de comando federal disseminou-se pelas administrações estaduais e municipais. Com a honrosa exceção dos alertas feitos por infectologistas, abnegados especialistas do Ministério da Saúde e algumas secretarias estaduais, ignoraram-se o cenário mundial da pandemia, as tendências de propagação e as medidas de isolamento social recomendadas por organizações internacionais. Depois de oito meses, 5,3 milhões de contaminados, 156 mil mortos, três ministros da Saúde – e caminhando para o quarto –, o País se vê sem diretrizes e políticas consistentes de recuperação econômica.

Num momento como este, o âmago da questão é o governo transmitir orientações seguras e confiáveis. E, sobretudo, que entenda o mundo pós-pandemia, com as rápidas e profundas transformações nas relações de trabalho, empresas, nas inovações tecnológicas, na transmissão do conhecimento e nas organizações públicas.

Apesar das imensas perdas causadas pela pandemia, o século 21 já vinha dando ensejo ao aprofundamento das mudanças nas formas de produção e nas estruturas produtivas. O Brasil absorveu, sem dúvida, muitas dessas mudanças. Mas é importante que o País decida, afinal, se vai ter ou não papel mais ativo neste mundo em rápida transformação. Ao fim e ao cabo, a decisão é se o País vai se inserir na economia mundial com maior poder de barganha na nova divisão internacional do trabalho que se delineia ou continuar dependente contumaz das economias mais avançadas. O jogo, agora, é trocar conhecimento, inovação e tecnologia por mercadorias. De que lado o Brasil fica?

Mas como vislumbrar o pós-pandemia com a evidência da incapacidade do governo de atualizar as agendas públicas? A negação da gravidade da pandemia, o desprezo pelas vidas perdidas, a falta de apoio ao sistema de saúde mostraram em toda sua crueza o País despreparado para enfrentar a realidade. Continuamos teimosamente ancorados no atraso e comprometendo quaisquer iniciativas de buscar um futuro com mais crescimento e maior igualdade. Não é preciso dizer que, para investidores externos, não são nada animadoras as reformas sempre adiadas e as diretrizes de governo enredadas numa teia de duplas mensagens, linguajar arcaico e gerando um turbilhão de incertezas.

Os desafios pós-pandemia são enormes e cinco questões exigem respostas rápidas. Como restaurar a credibilidade internacional do País, com o galopante desmatamento da Amazônia e do Pantanal? Como superar os gargalos na infraestrutura, sem acesso aos financiamentos internacionais? Como elevar os níveis de produtividade da economia, sem melhorar significativamente os padrões básicos de ensino? Como remover empecilhos institucionais e tributários para aumentar a competitividade do País no mercado externo? Como retomar o crescimento de forma continuada e expandir o mercado interno, com uma carga tributária sufocante?

Uma analogia com a crise mundial dos anos 30 indica que teremos de evoluir para um patamar mais elevado de renda, igualdade e bem-estar. É cada vez mais óbvio que será necessário dotar o País de uma base mais moderna e integrada de geração de conhecimento, inovações e avanços tecnológicos. Será inadiável reduzir drasticamente a pobreza e a marginalidade social urbana, e não se pode negligenciar o ônus que recai sobre a economia e a sociedade pelo aumento descontrolado da violência e da criminalidade. Por fim, o sistema político brasileiro terá de se tornar mais contemporâneo, mais condizente com a realidade do País e menos vulnerável à corrupção endêmica. Ao que tudo indica, até agora a preferência geral tem sido pelo “deixa estar, para ver como é que fica”.

*ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS, É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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