Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Uma análise da disparidade salarial entre elas e eles

Novo livro de especialista de Harvard mostra como a carreira das mães costuma ser prejudicada

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Feministas radicais e liberais, conforme definidas pelos filósofos, diferem na medida em que as escolhas feitas livremente pelas mulheres são importantes. Uma feminista liberal deseja o máximo de autonomia para as mulheres, exigindo direitos iguais e o fim da discriminação sexual. Uma feminista radical vê na sociedade forças patriarcais maiores do que qualquer pessoa e que oprimem as mulheres em parte influenciando suas escolhas. As diferenças econômicas entre os sexos – como disparidades salariais entre homens e mulheres – são sempre um sinal de injustiça.

Um recente livro de Claudia Goldin, da Universidade de Harvard, especialista em mulheres e trabalho, é um estudo das escolhas das mulheres americanas e o contexto em que são feitas. Career and Family: Women’s Century-Long Journey Toward Equity (“Carreira e família: a jornada de um século das mulheres rumo à igualdade”, numa tradução livre) traça a história do trabalho e da família para mulheres com ensino superior e diagnostica o que ainda hoje atrapalha suas carreiras.

Uma caricatura da história pode ser o percurso de casa até o local de trabalho. Na verdade, a primeira geração das mulheres dos estudos de Claudia Goldin nasceu entre 1878 e 1897 e era composta por muitas mulheres trabalhadoras. Mas uma carreira de sucesso normalmente exigia a renúncia aos filhos e, às vezes, ao casamento. Entre as mencionadas em “notáveis mulheres americanas”, uma coleção de biografias, não mais do que três em cada dez tiveram um filho, escreve ela. A escolha que as mulheres enfrentavam era “família ou carreira”.

Já na terceira geração, nascida entre 1924 e 1943, as mulheres com ensino superior tinham uma experiência de vida mais uniforme: “família, depois trabalho”. A mulher típica trabalhava após a formatura, mas logo se casava, tinha filhos e abandonava o mercado de trabalho. Ela retomaria a vida profissional depois que os filhos estivessem na escola, e a remoção gradual das barreiras discriminatórias formais abriu oportunidades para ela. Mas sua ausência prolongada do mercado significava que ela não tinha as habilidades e a experiência exigidas para evoluir profissionalmente.

Sob o efeito da pílula

É apenas no quinto grupo, nascido depois de 1958, que muitas mulheres aspiravam chegar à “carreira e família”. A mudança foi auxiliada pela pílula anticoncepcional, que ajudou as mulheres a adiar o casamento; melhores tratamentos de fertilidade, que as ajudaram a retardar a procriação, além de normas sociais mais liberais. No entanto, apesar da impressionante dimensão da mudança que Claudia documenta, uma clara lacuna de gênero ainda existe para essas mulheres, principalmente no que diz respeito a salários. As mulheres americanas ganham em média 20% menos por hora trabalhada. Para as mulheres com curso superior, a diferença é maior, de 26%.

É nesse ponto que o livro se torna provocativo. Baseando-se em centenas de pesquisas, Claudia argumenta que a maioria das mulheres não sofre mais muita discriminação no mercado de trabalho quanto à remuneração desigual para desempenho igual, como a esquerda costuma afirmar. As disparidades salariais entre homens e mulheres também não são motivadas principalmente pela escolha da profissão pelas mulheres, uma explicação por vezes favorecida pela direita. Mesmo que a distribuição das ocupações femininas correspondesse à dos homens – “se as mulheres fossem os médicos e os homens, as enfermeiras” –, ela calcula que no máximo um terço da disparidade salarial desapareceria.

A causa mais importante é que as mulheres restringem a carreira como uma resposta racional da família aos mercados de trabalho, que recompensam generosamente qualquer pessoa disposta a manter o que Claudia chama de “emprego exigente”. São funções, ligadas ao direito, à contabilidade e às finanças, que demandam longas e imprevisíveis horas de trabalho. Os pais precisam de alguém para ficar de plantão em casa no caso de uma criança adoecer e precisar ir buscá-la na escola ou participar de um evento ou partida de futebol. Isso é incompatível com um trabalho exigente, que requer estar disponível às demandas de última hora. Ninguém consegue fazer as duas coisas. A resposta racional é que um dos pais se especialize em trabalho lucrativo e exigente e que o outro – normalmente a mãe – dê prioridade aos filhos. Claudia escreve que “o patrimônio do casal foi – e continuará a ser – descartado para aumentar a renda familiar”.

Uma disparidade salarial entre homens e mulheres resultante principalmente das escolhas das famílias é um problema espinhoso para os liberais que prezam a liberdade de escolha. É também um território complicado para economistas, que muitas vezes enfatizam a “preferência revelada” daqueles que estudam e a eficiência inerente aos resultados de mercado. Fiel a sua filiação à escola de Chicago de economistas de tendência conservadora, Claudia não oferece receitas confiáveis para a atuação do governo que poderiam facilmente ter seguido seu convincente diagnóstico do problema. Algumas partes de seu livro sugerem que ela apoia mais subsídios para creches, como os propostos pelo presidente americano Joe Biden. Mas, falando com a The Economist, ela foi mais circunspecta, apontando que, entre as propostas de Biden, ela priorizaria as transferências de dinheiro para os pais (uma política que não tenta mudar as escolhas das famílias). O livro é sobre “o que aconteceu e por quê”, ela diz, ao invés de soluções.

Por amor ou dinheiro 

Outro tema do livro é que o progresso para as mulheres tem a ver com mudanças tecnológicas e inovação. Poderiam forças semelhantes interromper o nível de exigência dos empregos? Para algumas funções, é difícil ver como; pouco pode impedir autônomos de gastar horas em seus negócios. Mas as empresas têm um incentivo para tornar os empregos menos exigentes, porque contratar e promover mães significa tirar proveito de um grupo maior de talentos. Claudia cita a indústria farmacêutica como um setor que fez a transição. Muitos farmacêuticos costumavam ser autônomos, e os clientes esperavam atendimento personalizado. Os computadores e a consolidação fizeram com que os farmacêuticos se tornassem mais substituíveis, tornando o trabalho menos exigente. Talvez o trabalho remoto ou a inteligência artificial façam o mesmo com outras profissões.

Como uma radical, Claudia, identificou uma característica estrutural da economia: “Não é você, é o sistema”, ela tranquiliza o leitor. Mas ela tem uma hesitação liberal sobre interromper um sistema que se baseia em escolhas.

TRADUÇÃO DE ANNA MARIA DALLE LUCHE

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