Ryan Stone/NYT
Ryan Stone/NYT

Uma batalha entre pai e filha por US$ 40 bilhões

Sumner Redstone, dono do império do entretenimento formado por Viacom e CBS, tem relação conturbada com a filha, Shari

Emily Steel, The New York Times

23 de março de 2016 | 15h34

Shari Redstone tira o iPhone da bolsa para mostrar "só uma" foto dos netos. Ela ri, depois se desculpa quando vê que as costas do telefone estão recobertas de adesivos - resultado de uma sessão de artesanato com dois jovens.

Pequena, com cabelo louro coberto por uma touca e um sorriso cauteloso, Shari é o retrato da avó coruja. Por baixo desse exterior jovial, no entanto, existe uma mulher tenaz em meio a uma batalha pela fortuna da família bem como pelo destino de duas das maiores empresas de mídia do mundo, Viacom e CBS.

"Minha vida é muito boa. É uma vida de sonhos, tirando a parte que não é uma vida de sonhos", disse Shari, 61 anos, durante uma rara entrevista.

Ela é a filha extremamente reservada de Sumner Redstone, o magnata belicoso que reuniu impiedosamente um império de entretenimento de US$ 40 bilhões.

Nascida em Massachusetts e com um forte sotaque de Boston, Shari foge da atenção pública com a mesma gana que o pai a atraía. Seus pais se separaram após 52 anos de casamento. A seguir, ele voltou a se casar e a namorar mulheres décadas mais jovens. Ele foi processado pelo tio de Shari, pelo irmão e pelo primo. Brigou publicamente com os filhos e trocou uma série de diretores executivos em suas empresas. E ficou famoso por ter declarado que nunca iria morrer.

Agora, Sumner Redstone tem 92 anos, a saúde se encontra em mau estado e ele confinado em sua mansão em Beverly Hills. Depois que morrer ou for considerado incapaz, Shari deve assumir a atual liderança da Viacom para determinar o futuro de seu império da mídia - e, por extensão, a herança de seus filhos e o legado da família.

A relação entre pai e filha é complicada. Ela foi a única que telefonou para o pai depois de este sobreviver a um incêndio em um hotel quando ele tinha 55 anos. O pai a convenceu a entrar nos negócios da família e declarou a um repórter que a vida não estava completa até que as pessoas tivessem "conhecido Shari".

Ao longo dos anos, no entanto, ele a desqualificou em conversas com outros executivos e a puniu por se meter em seus negócios. O pai criticou publicamente as tentativas da filha de se posicionar para um dia sucedê-lo como presidente da Viacom e da CBS. A briga entre os dois ganhou manchetes, como quando ele escreveu à revista "Forbes" dizendo que seus filhos pouco ou nada fizeram para ajudar a construir o império da família. Às vezes, pai e filha se comunicavam exclusivamente via fax ou advogados, quando isso acontecia.

Hoje, ela não faz parte de seu testamento. O grosso dos bens vai para a caridade.

Shari disse que resolveu as discordâncias "muito públicas" com o pai. Ultimamente, ela virou presença frequente em sua casa.

Esse retrato de seu relacionamento agora é contestado em uma feia ação judicial, movida em Los Angeles por uma antiga companheira e parceira romântica de Sumner Redstone. O processo diz que ele perdeu a capacidade mental e que Shari o manipulou para tomar o controle de sua vida, suas empresas e seu dinheiro.

"Essa visão otimista pintada por Shari de sua suposta reconciliação com o pai é uma cortina de fumaça", declarou Manuela Herzer, a antiga companheira, em declaração recente ao tribunal. "Sua repentina conversão em filha amorosa e onipresente coincide com a batalha épica" pelo controle de seu império.

Shari não quis comentar o processo nem a saúde do pai. Seu porta-voz qualificou as alegações no processo de "infundadas", bem como os advogados de Sumner Redstone, que não quiseram comentar o processo.

A briga jurídica, com julgamento marcado para começar em maio, é somente uma parte de uma batalha maior por dinheiro e poder no império de Sumner Redstone. O campo de batalha é uma estrutura corporativa singularmente intrincada.

Sumner Redstone controla a Viacom e a CBS por meio da National Amusements, cadeia de cinemas fundada por seu pai, e detém cerca de 80% das ações com direito a voto nas duas empresas. Depois que ele morrer, sua participação na National Amusements passará a uma fundação criada para beneficiar seus cinco netos.

A fundação tem grande poder. Ela poderia, por exemplo, apoiar a atual direção, instalar uma nova diretoria e equipe de executivos ou até mesmo vender as empresas. Shari é um dos sete membros com direito a voto da fundação.

Ela não quis comentar a atividade da diretoria, e seus planos exatos não estão claros, sem falar que ela não quer pessoalmente liderar nenhuma das duas empresas. Também não está claro quantos membros da fundação ficarão do seu lado. Várias pessoas próximas a ela, que falaram sob a condição de anonimato porque as deliberações são secretas, dizem que a filha tem o apoio de pelo menos dois integrantes.

Sabe-se que Shari disse ter 80% da inteligência do pai, 90% de sua paixão e 100% de sua natureza obsessiva. Essa parece uma combinação contundente na preparação para o que deve ser uma saga épica.

Shari se formou em Direito e trabalhou como advogada criminalista de defesa para uma pequena firma de Boston. Casou-se em 1980, teve filhos e, quando as crianças ficaram mais velhas, decidiu se formar em serviço social depois que trabalhou como voluntária em um centro para trauma de crianças que sofreram violência.

Foi nessa hora que o pai a colocou nos negócios da família. Ele estava passando mais tempo em Nova York com a Viacom e queria que a família acompanhasse a National Amusements em Boston. Convenceu a filha a administrá-la.

"Meu avô abriu esta empresa. Era nosso legado familiar", ela disse.

Shari, que estava se divorciando na época, concordou em trabalhar na National Amusements dois dias por semana durante um ano. Seis meses depois, estava lá em tempo integral.

Na National Amusements, Shari se concentrou em duas áreas em que pensava ser possível firmar sua reputação: expansão internacional na Rússia e América do Sul e melhorar a experiência de ir ao cinema, no sentido de ser algo além de comer pipoca e caminhar sobre o piso grudento da sala.

Em alguns cinemas ela passou a acrescentar poltronas especiais reservadas, cardápios completos para refeição e coquetéis que ajudou a criar.

"Eu não gosto de seguir o que já foi feito. Gosto de aprender com experiências anteriores, mas criar um novo caminho", declarou ela.

À medida que o tempo passava, a harmonia entre pai e filha saiu do ritmo. Houve uma série de brigas públicas depois que Sumner Redstone a nomeou vice-presidente da Viacom em 2005. Ela pressionou para ter mais autoridade e medidas mais fortes para a governança corporativa, tais como ligar a remuneração ao desempenho. Pelo menos uma vez, ele ameaçou demiti-la.

Depois de ajudar a National Amusements a negociar os débitos, Shari decidiu que estava na hora de atuar por contra própria. Hoje, ela continua sendo a presidente, mas se concentra mais na empresa de capital de risco Advancit Capital, que criou, em 2011, com o genro, Jason Ostheimer.

"Vejo o mundo que virá", disse ela sobre as ambições da Advancit. "Estou exposta ao futuro, não apenas da mídia, mas do mundo."

Ao longo dos anos, Shari lutou para equilibrar o desejo de deixar uma marca própria no legado da família e ter uma vida tranquila e proteger a si mesma, aos filhos e aos netos da exposição pública.

"É muito ruim quando sua vida é analisada por pessoas que não conhecem você e que desconhecem a situação. Assim, evito o lado bom e o ruim e tento viver num mundo em que posso me isolar de tudo que existe por aí".

Há pouco tempo, Shari e sua família tiraram férias para celebrar os 91 anos de sua mãe. Após jantar uma noite em uma sala com vista para o mar, ela recebeu um bilhete da equipe dizendo que eles pareciam ser a família perfeita.

"Meu Deus", disse ela mais tarde, com uma gargalhada. "Vocês não sabem da missa a metade."

The New York Times News Service/Syndicate - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Mais conteúdo sobre:
The New York TimesViacom

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.