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Ana Carla Abrão
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Uma boa gestão de crise se faz com responsabilidade, e não com ignorância e ideologia

A bem da verdade, nunca houve autonomia, autoridade ou liderança que desse uma face ao enfrentamento da atual crise

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 04h00

Autonomia, poder, coordenação e transparência. Esses são os atributos necessários às ações de enfrentamento de crises segundo Pedro Parente, que, então ministro-chefe da Casa Civil do governo Fernando Henrique Cardoso, coordenou a Câmara de Gestão de Crise no apagão de 2001. Autonomia acompanha confiança mútua e passa, necessariamente, pelo respeito às decisões tomadas pelos que têm (e respondem) pelo mandato recebido. 

Apoiadas em evidências, fatos, dados, conhecimento e experiência, essas decisões precisam ser terminativas, sob risco de, não o sendo, perderem eficácia e tumultuarem um processo que precisa ser célere e passar segurança. 

A Câmara de Gestão daquela crise foi formada por representantes de diversas áreas do governo federal, além de um representante com a visão dos Estados e especialistas no setor elétrico e em gestão. Tudo isso para garantir que as decisões tomadas fossem embasadas no melhor e mais amplo conhecimento do problema e que dali saíssem ações coerentes e coordenadas. 

Poder, o segundo atributo, não é o poder per se, mas sim o seu exercício na busca dos resultados necessários e nas metas traçadas. Poder que garanta que as decisões sejam tempestivas, sem que se tenha de estar sujeito aos trâmites burocráticos que geram demoras e abrem espaço a disputas que consomem tempo precioso de resposta. 

Coordenação é imprescindível para garantir que os esforços estejam todos na mesma direção – dentro do governo federal e entre todos os níveis de governo – e que as vozes sejam uníssonas, fortalecendo as mensagens. Não se combate uma crise complexa e de grandes dimensões sem combinar ações com as diversas áreas do governo nem tampouco, numa federação, sem ouvir e trabalhar junto com Estados e municípios. 

Transparência, por fim, é o que permite que a sociedade entenda a gravidade do problema e se engaje na solução. Tudo isso está na aula de gestão pública que Parente nos dá com clareza e simplicidade notáveis no quarto episódio do podcast do Instituto Casa das Garças a que já me referi neste espaço (https://iepecdg.com.br/podcast/). 

Ouvindo-o, não há como não comparar a resposta que o governo deu naquele momento ao que vivemos hoje, após ultrapassarmos a triste marca de 500 mil mortos por covid-19. No processo de expurgação e de busca de justificativas impossíveis, o contraste salta. O contrafactual é perverso, desvendando um receituário invertido, atrapalhado e ideológico. Receituário que nos trouxe ao resultado que hoje amargamos, numa tragédia que segue seu curso e se amplifica no negacionismo, na ignorância, nas notícias falsas e no confronto.

Dos atributos listados, autonomia nunca houve. A bem da verdade, nem mesmo houve autoridade ou liderança que desse uma face ao enfrentamento da crise. No Ministério da Saúde, que seria só parte da solução do problema, os que tiveram a ilusão de assumi-lo ficaram pelo caminho. Poder, o outro atributo, é prerrogativa de uma só pessoa nesta República. No seu exercício, abriu-se mão de conhecimento, experiência e capacidade de análise, ignorando os milhares de técnicos das mais diversas áreas do governo – gestores e funcionários públicos que têm competência e mandato (e, portanto, podem e devem ser responsabilizados por seus atos) –, e preferiu-se seguir recomendações sem fundamento científico de pessoas que – embora tenham o direito de acreditar no que bem entendam – não poderiam se lançar livremente a traçar políticas públicas. 

Erro menos deles do que de quem os seguiu e, dono de uma caneta, os transformou em autores (quase) inimputáveis de políticas irresponsáveis. 

Finalmente, coordenação e transparência passaram longe. O norte sempre foi político e ideológico e logo se tornou eleitoreiro, confrontando governadores e prefeitos numa corrida eleitoral que começou em tempo e em momento inadequados. Com isso, transparência nunca foi o nome desse jogo jogado nas sombras e nas franjas dos órgãos oficiais. 

Perdeu-se tempo, perderam-se vidas e se perdeu a oportunidade de usar as lições do passado para minimizar os custos e as dores de uma grande tragédia. A comparação mostra que uma boa gestão de crise se faz com responsabilidade e liderança, e não com desídia, ignorância e ideologia. 

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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