Uma bolha no mercado de carros clássicos?

Leilão nos EUA tem Ferrari arrematada por US$ 38,1 milhões e gera polêmica com vendas totais 28% mais altas do que em 2013

JAMES B. STEWART, THE NEW YORK TIMES /O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2014 | 02h04

No ano passado, dois apartamentos em Manhattan foram vendidos por mais de US$ 90 milhões e uma pintura de Francis Bacon por US$ 142,4 milhões. Agora, um carro alcança o valor de venda de US$ 38,1 milhões. Esse foi o preço pago por uma Ferrari 250 GTO Berlinetta, de 1962, vendida no mês passado no leilão do Bonhams Quail Lodge em Carmel, Califórnia. Um valor 28% mais alto do que o recorde de venda anterior, US$ 29,7 milhões, de um carro de corrida Mercedes Benz no ano passado.

Embora as Ferraris sejam raras - somente 32 foram produzidas entre 1962 e 1964 - o preço do modelo 250 GTO não foi de maneira alguma o único recorde quebrado durante a semana de leilões de carros renomados, que ocorre uma vez por ano na Península de Monterey.

No leilão do Bonhams Quail Lodge, nove modelos Ferrari bateram recordes, assim como o Rolls-Royce que pertenceu a Elvis Presley e várias Maseratis. As vendas totais da semana alcançaram US$ 400 milhões, alta de 28% em relação a 2013.

"Alcançamos valores recordes jamais vistos", disse McKeel Hagerty. Ele é diretor executivo da Hagerty Insurance, especializada em seguros para carros de coleção e que elabora um índice de preços que, para os colecionadores de carros, equivale à Media Industrial Dow Jones. O Blue Chip Index de Hagerty de 25 carros clássicos registrou um aumento de 34,5% em relação ao ano passado, superando de longe a média de ganhos de títulos e ações.

"As pessoas se perguntam se essa é uma nova e excelente classe de ativos", diz Evan Beard, diretor do grupo financeiro e de arte Deloitte's. Mas também se questionam se não estariam em meio a uma bolha. Nesse caso, não seria a primeira vez. Nos anos 80, o mercado também disparou, especialmente no caso das marcas Ferrari e Jaguar, e depois despencou.

"Estou ficando cada vez mais inquieto", escreveu recentemente Scott Grundfold em seu boletim para os colecionadores. A empresa de Grundfold também restaura e dá consultoria sobre carros clássicos. "Pelo menos 50% do aumento fenomenal no valor dos carros pode ser atribuído à impressão de dinheiro e à manipulação das taxas de juros pelos bancos centrais."

Federal Reserve. Nesse aspecto, os carros são vistos como o mais recente de uma série de ativos cujos valores dispararam desde que o Federal Reserve (Fed) deu início à sua agressiva política de oferta de dinheiro a juros baixos para combater os efeitos da crise financeira de 2008. Mas isso significa que os preços podem cair, talvez precipitadamente, quando o Fed começar a restringir o crédito. "Gostaria de ver uma estabilização dos preços", afirmou a colecionadora Keith Martin. "A situação como está não pode durar para sempre." Mas outros discordam da ideia de bolha em torno dos carros clássicos.

Hagerty, por exemplo, diz não observar nenhuma compra alavancada ou especulativa que caracterizou a disparada de preços nos anos 80. Keith Martin também vê poucos sinais de excesso. "As pessoas que estão comprando são muito discretas. Você não observa compras exuberantes comuns em leilões de arte." Segundo Hagerty, os US$ 38 milhões pagos pela Ferrari foram um "valor racional". "Não sabemos quem é o comprador, mas, seja quem for, demonstrou disciplina e moderação. Esta Ferrari é dos dias de glória. Maravilhosamente projetada, feita à mão e rara."

Sua proveniência também é cobiçada pois veio da coleção de Fabrizio Violati, herdeiro de uma família italiana abastada do setor de águas minerais, que adquiriu o carro em 1965 por US$ 4 mil e o manteve até sua morte em 2010.

O estilista Ralph Lauren também possui uma Ferrari 250 GTO Berlinetta, ao lado de uma grande coleção de carros clássicos, que é tema do livro Speed, Style and Beauty. Seus carros foram exibidos no Museu de Artes Decorativas em Paris em 2011.

"Os US$ 38 milhões surpreenderam muita gente, mas equivalem a menos de um terço do preço pago por uma pintura caríssima", disse Eric Y. Minoff, especialista em carros na Bonhams, que também trabalha com obras de arte. "E os carros são objetos que podem ser usados. Alguns colecionadores os mantêm trancados, mas a maioria trafega com eles." / Tradução de Terezinha Martino

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