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Uma brasileira na cúpula global da propaganda

De Ribeirão Preto, Ann Newman é vice-presidente executiva do WPP, maior conglomerado de agências de publicidade do mundo

Marili Ribeiro, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

O nome estrangeiro se explica pela origem judaica. Seus pais deixaram a Europa no período da guerra. Mas Ann Newman nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, estudou em escolas públicas brasileiras e frequentou a Pontifícia Universidade Católica (PUC). Há 30 anos nos Estados Unidos, e 20 na WPP - o maior conglomerado mundial de serviços de marketing e comunicação -, Ann integra a cúpula do grupo como vice-presidente executiva para América Latina. É uma das poucas mulheres a ocupar lugar de destaque na propaganda mundial, dominada por homens. A executiva trabalha diretamente com o poderoso CEO do conglomerado, Martin Sorrell, tem mérito profissional, mas sua carreira também é consequência de dominar a língua portuguesa.

"Construí minha carreira trabalhando em finanças em Nova York. Falar línguas, em especial português, fez com que eu sempre estivesse envolvida com negócios referentes ao Brasil", conta. A sua formação profissional se deu em auditoria e controladoria. Passou pela indústria farmacêutica e por empresas de trading. A publicidade nunca esteve em seus planos. "Nem sei explicar como caí nela. Aliás, me pergunto isso o tempo todo!", pontua. Conhecedora do Brasil, ao qual dedicou sua tese de doutorado, Ann brinca que não aguenta mais "os Pedro Álvares Cabral", como define "os novos descobridores do Brasil". O País tem sido tema constante em reuniões mundo afora do grupo. Nos últimos dez anos, o negócio da WPP mais do que triplicou no Brasil, um cenário que não vai mudar tão cedo e que dá a Ann um papel estratégico.

WPP no Brasil. Aqui, o conglomerado, com sede em Londres e ações em bolsa, controla a maior agência de propaganda do País, a Young & Rubicam, e também a terceira e a nona colocadas no ranking do Ibope até outubro, JWT e Ogilvy, respectivamente. Tem participação em empresas de pesquisa como TNS, Kantar Worldpanel e até Ibope. No ano passado, o WPP faturou US$ 15 bilhões. A Europa respondeu por 40% do total, EUA por outros 40% e Ásia e América Latina por 20%. Nessa última área, a participação deve saltar para 26% já em 2011.

Recentemente, o grupo anunciou sociedade com o jogador de futebol Ronaldo numa empresa de marketing esportivo, a Nine9. E, nas próximas semanas, deve chegar ao mercado a badalada butique criativa canadense Taxi, que foi adquirida recentemente pelo WPP. Novos negócios estão a caminho, como admite Ann. "Sempre existem coisas no mercado brasileiro que merecem atenção. Olhamos agências tradicionais e digitais, ou por meio de nossos clientes ou de nossas operações", afirma. "Quanto mais gente se conhece, mais oportunidade de negócios se tem. Esse é um negócio de contato, e é por isso mesmo que tenho de vir sempre para cá."

Na tarefa de conhecer pessoas, agências e competidores, ela coleciona com gosto momentos como o encontro, há alguns anos, entre Martin Sorrell e Samuel Klein, fundador da Casas Bahia e maior cliente da agência Young & Rubicam. "Foi emocionalmente rico, pois a história de vida de Samuel é semelhante a de meus pais", relembra.

Crescendo junto. Ann entrou no WPP em 1990, num tempo em que o conglomerado começava a crescer por meio de fusões e aquisições. Sua chegada se deu logo depois da compra da rede de agências Ogilvy, operação que foi considerada caríssima para os padrões da época. "Chegaram a dizer que Sorrell iria quebrar por ter pago US$ 700 milhões pela Ogilvy", lembra. Só para se ter uma ideia de como os negócios da propaganda global mudaram de patamar nas últimas duas décadas, poucos anos depois da Ogilvy, o WPP adquiriu a rede de agências Young & Rubicam por US$ 4 bilhões.

Participante ativa de todo esse processo de expansão, Ann fala do WPP com carinho, quase no mesmo tom de quando se refere aos dois filhos ou à trajetória dos pais que vieram para o Brasil após perder quase toda a família no Holocausto. Aliás, a família se mudou para os EUA quando descobriu um tio de Ann que também havia sobrevivido.

Ao colocar o mercado em perspectiva, a executiva diz que, na era digital, vê a prestação de serviços de marketing cada vez mais como um parceira necessária nos negócios, já que marca passa a ser um patrimônio relevante em meio a tanta oferta.

Para ela, a criação de conglomerados de serviços de marketing, como o WPP, com organização e práticas empresariais, pôs a propaganda em outro patamar: agora as agências são capazes de adicionar valor a uma companhia. Há 20 anos, elas eram pautadas apenas pela oferta de soluções de comunicação criativas para anunciantes.

A sócia do conglomerado por opção - Ann recebe parte de seus rendimentos em ações - é uma espécie de eminência parda que, pelo menos uma vez por mês, passa pelo Brasil. Acompanha de perto as oportunidades de aquisições. Avaliou, por exemplo, todos os números da agência Talent, que acabou adquirida pelo conglomerado francês Publicis em setembro deste ano. Embora não comente, os sócios do WPP acharam o preço salgado.

Apesar de ela ser suave na conversa, os executivos sob sua batuta dizem que é dura nas cobranças. Após a visita ao Brasil, Ann seguiu para Argentina, em sua rotina de percorrer a região sob o seu comando. Para ela, depois de Brasil e México, a Colômbia é a praça de maior potencial para os negócios de serviços de marketing. "É um mercado que está desabrochando. O maior empecilho agora é a falta de profissionais qualificados para atender ao ritmo de desenvolvimento vivido pelo país."

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