Uma catástrofe anunciada

''''O aumento dos empréstimos subprime está ligado a níveis mais altos de inadimplência, execuções hipotecárias e, em alguns casos, práticas abusivas.'''' É o que declarou Edward M. Gramlich, um funcionário do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Hoje em dia, muita gente diz coisas como essa sobre os empréstimos subprime - hipotecas concedidas a compradores que não atendem aos critérios financeiros normais.Mas eis o ponto: Gramlich disse isso em maio de 2004. E não foi seu primeiro aviso. Em seu último livro, Gramlich, falecido de câncer, recentemente, revelou que tentou fazer Alan Greenspan aumentar a fiscalização dos empréstimos subprime já em 2000, sem sucesso.Por que nada foi feito para evitar o fiasco do subprime? Antes de tentar responder, apresento algumas coisas que vocês devem saber. Em primeiro lugar, a situação parece cada vez mais sombria tanto para tomadores de empréstimos como para investidores. Um novo relatório da Comissão Econômica Conjunta do Congresso prevê que haverá 2 milhões de execuções de hipotecas subprime até o fim de 2008. São 2 milhões de famílias americanas encarando a humilhação e a dor financeira de perder suas casas.Ao mesmo tempo, os investidores que compraram ativos apoiados por empréstimos subprime continuam a sofrer graves perdas. Tudo indica que haverá muitas outras histórias como a do Merrill Lynch, que acaba de anunciar uma baixa contábil de US$ 8,4 bilhões por causa de créditos de risco - US$ 3 bilhões a mais que o anunciado poucas semanas antes.Em segundo lugar, grande parte - se não a maioria - dos empréstimos subprime que agora se tornam catastroficamente ruins foi concedida depois que já estava claro para muitos de nós que havia uma grave bolha imobiliária e depois que pessoas como Gramlich haviam advertido publicamente para a situação do subprime.Em 2003, os empréstimos subprime representavam apenas 8,5% do valor das hipotecas emitidas nos EUA. Em 2005 e 2006, os anos de pico da bolha habitacional, o subprime era 20% do total - e os índices de inadimplência recentes são muito mais altos que nos empréstimos mais antigos.Assim, mais uma vez, por que nada foi feito para evitar esse desastre? A resposta é: ideologia. Num ensaio apresentado pouco antes de sua morte, Gramlich escreveu que ''''o mercado subprime era o Velho Oeste. Mais de metade das hipotecas foi concedida por credores independentes, sem nenhuma supervisão federal.'''' O que ele não mencionou é que este era o caminho preferido pelos ideólogos do laissez-faire no poder em Washington - um grupo que incluía Greenspan. Eles eram e são homens que acreditam que o governo é sempre o problema, nunca a solução, e a regulamentação é sempre ruim.Infelizmente, as afirmações de que os mercados financeiros não regulamentados se cuidariam sozinhos mostraram-se tão equivocadas quanto as alegações de que a desregulamentação reduziria os preços da energia elétrica.Como Barney Frank, presidente da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara, escreveu recentemente num artigo no jornal The Boston Globe, o surto de empréstimos subprime foi uma espécie de ''''experimento natural'''' testando as teorias de quem defende a desregulamentação radical dos mercados financeiros.E as lições, como disse Frank, são claras: ''''Nos casos em que o sistema funcionou, foi graças à regulamentação e à fiscalização. Nos casos em que isso estava ausente, o resultado foi a tragédia.'''' De fato, tanto os tomadores de empréstimos quanto os investidores foram enganados.Já escrevi sobre o modo como os investidores em valores mobiliários apoiados por empréstimos subprime ouviram garantias de que estavam comprando ativos AAA, mas de repente descobriram que na verdade possuíam títulos de alto risco. Esse choque causou uma crise de confiança nos mercados financeiros que representa uma séria ameaça à economia.Mas a tragédia maior é a dos tomadores de empréstimos que aceitaram negócios apresentados como bons, mas se viram presos numa armadilha de dívidas. Em seu último ensaio, Gramlich sublinhou o grau em que o empréstimo não regulamentado é propenso às ''''práticas abusivas'''' que ele mencionara na advertência de 2004.Frank agora tenta aprovar uma lei que estenda a regulamentação moderada ao mercado subprime. Ele tem uma dura batalha pela frente: o dinheiro ainda fala em Washington e a indústria da hipoteca é uma enorme fonte de financiamento de campanhas eleitorais.*Paul Krugman escreve para o ''''The New York Times''''

Paul Krugman*, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.