MARCOS ARCOVERDE | ESTADÃO CONTEÚDO
MARCOS ARCOVERDE | ESTADÃO CONTEÚDO

Vinicius Neder (textos) e Marcos Arcoverde (fotos) / Enviados Especiais a Volta Redonda, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2016 | 17h00

Em meio à recessão, a crise da indústria do aço atingiu em cheio a economia da região onde ela nasceu, no Médio Paraíba, sul do Estado do Rio. Um retrato disso pode ser visto no Cine 9 de Abril, em Volta Redonda, maior cidade da região, com 263 mil habitantes. As escadas que dão acesso à sala ficam sob um vão sustentado por pilotis, numa clássica construção da década de 50, auge dos cinemas de rua. Na quinta-feira, o abrigo da chuva e do sol atraía um grupo de trabalhadores em busca de emprego. O número de desempregados por ali pode chegar a dezenas em alguns dias, segundo Eli de Souza Fernandes, aposentado cuja esposa dirige o restaurante no mezanino do cinema.

Desempregados não faltam. De janeiro a maio, foram fechadas 7 mil vagas de emprego formal nas cidades da região, segundo dados do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Setenta anos após a inauguração da Usina Presidente Vargas, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a dependência da indústria do aço segue relevante na região. Em Volta Redonda foram cortados 3,9 mil postos de trabalho até maio, 41% deles nas atividades de siderurgia e metalurgia, segundo dados levantados pelo Observatório de Estudos do Rio de Janeiro da UFRJ.

De janeiro a junho, a CSN cortou 757 postos na usina de Volta Redonda – reflexo da situação financeira da companhia, que saiu de um lucro de R$ 1,6 bilhão no ano passado para um prejuízo de R$ 831 milhões no primeiro trimestre deste ano.

Depois de sete anos na CSN, o técnico em eletroeletrônica Evanyr Rodrigues Ferreira, de 26 anos, pediu para ser incluído no corte mais recente. Já estava sem motivação. “E se a gente trabalha desmotivado, o risco de acidente é maior.”

O peso dessa indústria na economia local amplia o efeito cascata. Sozinha, a usina da CSN emprega cerca de 10 mil funcionários diretos e outros 7 mil em terceirizadas. O economista Mauro Osório, do Observatório de Estudos do Rio de Janeiro da UFRJ, destaca que um dos problemas da economia fluminense é a pouca densidade das cadeias. “A estrutura produtiva do Rio é oca”, diz Osório.

O Médio Paraíba ilustra isso. A região sedia usinas siderúrgicas, que produzem aço bruto, e, mais recentemente, um polo automotivo, que usa o aço acabado para produzir caminhões e carros, mas tem poucas fábricas de produtos como latas e tampas, produtos de aço de maior valor agregado, em geral produzidos em São Paulo.

A Prefeitura de Volta Redonda tem um projeto de construir um condomínio industrial dedicado à cadeia do aço num terreno que pertence à CSN. A ideia é a empresa alugar ou vender as áreas, a Prefeitura construir a infraestrutura e o governo estadual dar incentivos tributários, segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Jessé de Hollanda Cordeiro Jr.

O efeito cascata se mostra tanto na queda da demanda da indústria por serviços e obras quanto no tombo do consumo das famílias no comércio. A CSN informa que investiu cerca de R$ 900 milhões em modernização nos últimos cinco anos. No momento, está apenas reformando a área de coqueria e, na quinta-feira, iniciou a reforma do alto-forno parado, que custará R$ 80 milhões e gerará 800 empregos.

O número parece insuficiente para os trabalhadores que se encontram no Cine 9 de Abril. No Médio Paraíba, foram fechadas 579 vagas na instalação de máquinas e equipamentos industriais, 525 em Volta Redonda.

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Acidentes na Usina deixam seis mortos

Em 25 de maio, Aluênio Francisco Alves, de 32 anos, faleceu no hospital Oeste D’Or, no Rio de Janeiro. Alves teve de 20% a 30% do corpo queimado na explosão de uma válvula na área de zincagem da Usina Presidente Vargas, da CSN, em Volta Redonda. O acidente ocorreu em 25 de março e vitimou quatro trabalhadores da companhia. Alves foi o último a falecer.</p>

Vinicius Neder / Enviado Especial a Volta Redonda, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2016 | 17h00

Também não resistiram às queimaduras Dênis da Silva, de 37 anos, Wanderlei dos Santos, de 38 anos, a primeira vítima a morrer, com 70% do corpo queimado, e Renan Martins, de 29 anos. Em 2015, dois trabalhadores já haviam morrido em acidentes na usina da CSN, totalizando seis mortes.

Após a explosão de março, o Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense vem cobrando mais segurança na usina e chegou a fazer um protesto, em maio. Para o sindicato, as medidas preventivas têm de ser mais rígidas do que o previsto em lei na unidade de Volta Redonda, pelo fato de a fábrica ser antiga – completou 70 anos este ano.

A CSN informou, por escrito, que investiu cerca de R$ 900 milhões em modernização nos últimos cinco anos, assegurando “melhor eficiência, produtividade, segurança e ganhos ambientais”.

Ainda assim, lamentou o acidente da área de zincagem. “A CSN considera uma tragédia inominável a perda de qualquer vida humana”, disse a empresa em nota. Segundo a companhia, as investigações mostraram que houve “um vazamento inesperado de gás no local”.

Um funcionário que trabalha há algumas décadas na casa e já atuou na comissão interna de prevenção de acidentes (Cipa), diz que a CSN investe pouco na troca de equipamentos antigos. O operário relata, sob condição do anonimato, que já lidou com um acidente em que a empresa não isolou o local para a perícia.

“A empresa conta com um quadro de sete engenheiros, um especialista, um supervisor e 32 técnicos, além do gerente de Segurança do Trabalho. A área realiza anualmente mais de 10 mil treinamentos”, diz a nota da CSN, que informa ainda que este ano já foram registrados 87 acidentes, 13% a menos do que em igual período do ano passado.

A idade da usina de Volta Redonda também preocupa por causa do meio ambiente. Os procuradores da República Marcela Harumi Biagioli e Rodrigo Thimoteo, que atuam na cidade, contabilizam cinco ações recentes do Ministério Público Federal contra a CSN. Além disso, há “dezenas” de inquéritos e ações civis públicas mais antigos. “É uma usina antiga, dos anos 40, e a CSN tem priorizado a distribuição de lucros”, diz Thimoteo.

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Vinicius Neder (texto) e Marcos Arcoverde (fotos) / Enviados Especiais a Volta Redonda, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2016 | 17h00

Na quinta-feira de manhã, os desempregados que passavam pelos pilotis do Cine 9 de Abril, em Volta Redonda, no Sul Fluminense, eram trabalhadores especializados em construção e montagem industriais, que cruzam todo o País em busca de trabalho temporário na construção de grandes empreendimentos, os chamados “trecheiros”. Geralmente, eles são contratados por períodos de alguns meses, como temporários.

Emprego nessas atividades não está fácil, por causa do tombo nos investimentos em meio à recessão e por causa da operação Lava Jato, que atinge em cheio as empreiteiras, principais contratantes do setor.

O Cine 9 de Abril não é ponto de encontro de trabalhadores à toa. A sala de cinema foi construída pelo Clube de Funcionários da CSN, hoje independente da empresa – e ainda pertence a ele. Operários trocam informação sobre oportunidades de trabalho por ali pelo menos desde a década de 1970, conta o aposentado Eli Fernandes.

O operador de maçarico Antônio Carlos Armando, de 59 anos, não encontra trabalho “direito” desde a construção da unidade de aços longos da CSN, em 2013. Assim como Armando, o mecânico Paulo Ferreira Lopes Jr., de 52 anos, vem vivendo de bicos – até como jardineiro, ofício que acabou aprendendo. A última obra grande em que trabalhou foi na reforma de uma plataforma em Macaé, litoral norte do Rio, principal base da indústria petroleira, encerrada em 2014.

“A Lava Jato está lavando a turma aqui de baixo”, resumiu Roberto Oliveira, eletricista de 55 anos, que tomou a decisão de buscar trabalho em outro Estado.

Oliveira e outros “trecheiros” desempregados em Volta Redonda reclamam da Prefeitura e do sindicato de trabalhadores da construção pela falta de políticas para priorizar a contratação de trabalhadores locais nas obras em Volta Redonda. Na porta da sede da mineira Reframax Engenharia, uma das contratadas para tocar a reforma do alto-forno 2 da CSN, que gerará 800 empregos, desempregados reclamavam que apenas trabalhadores de fora tinham currículos fichados.

Segundo o secretário de Desenvolvimento de Volta Redonda, Jessé de Hollanda Cordeiro Jr., editar leis dificultando a contratação de trabalhadores de fora, como pleiteiam alguns dos desempregados, é inconstitucional. Para ajudar quem busca emprego, a Prefeitura mantém um portal na internet com 300 mil currículos e 700 empresas contratantes cadastradas. Além disso, oferece cursos em parceria com as empresas, que já treinaram 2 mil trabalhadores.

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