Uma contribuição revolucionária

Análise: Ethevaldo Siqueira

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2011 | 03h01

A contribuição de Steve Jobs para a popularização da informática pessoal supera a de qualquer outro líder dessa indústria - Bill Gates, Steve Wozniak ou Adam Osborne. O Apple II, de 1977, se transformou num padrão de computador pessoal e foi para uma geração inteira a porta de entrada nesse mundo digital. Empreendedor incomum, gênio da tecnologia e visionário, Jobs apostou na simplificação máxima da relação homem-máquina ou, na linguagem dos especialistas, na interface de usuário. Tudo, para ele, tinha de ser o fácil de usar, ou "user friendly".

As mudanças introduzidas por Steve Jobs nos projetos dos computadores da Apple marcaram alguns momentos históricos da evolução da tecnologia, como o lançamento do Macintosh em 1984, do iMac na altura do ano 1989 e anos 1990, do iPod, em 2001, do iPhone, em 2006, e do iPad em 2010. O destaque e a marca de Steve Jobs nos produtos da Apple se apoiavam não apenas no design inovador e original, mas também nos sistemas operacionais, na usabilidade e na qualidade final dos produtos.

Antes de qualquer concorrente, Steve Jobs conseguia identificar tendências e buscar caminhos em que poucos acreditavam - como a associação da informática pessoal com entretenimento e mobilidade. Nesse sentido, sua contribuição talvez seja maior para a eletrônica moderna do que foi a de Henry Ford, um século antes, para a indústria automobilística.

É difícil acreditar que um homem, isoladamente, tenha dado uma contribuição tão profunda durante mais de 30 anos num segmento novo da informática e da eletrônica, a partir da fundação em 1976, aos 21 anos de idade, em companhia de Steve Wozniak, de uma empresa de fundo de quintal que alcançou, em agosto deste ano, a invejável posição de empresa de maior valor do mundo. No entanto, para reunir o capital inicial da Apple, Jobs e Wozniak tiveram de vender uma velha Kombi e a calculadora HP 65.

Como outros gênios, Steve Jobs não chegou a concluir nenhum curso de graduação universitária. Na metade dos anos 70, os estudos acadêmicos não o atraíam tanto quanto a criação de dispositivos e de equipamentos eletrônicos.

Sua parceria com Steve Wozniak foi um caso raro de complementaridade na relação de dois gênios. Enquanto Wozniak dominava a criatividade tecnológica, Jobs juntava a funcionalidade, a beleza do design e a visão de mercado.

Assim, no caso do Apple II, Steve Wozniak foi, na realidade, o pai do protótipo do primeiro computador pessoal, do qual foram fabricados apenas 500 exemplares e que não teve nenhum sucesso comercial. Mas coube a Steve Jobs cuidar do software, dos aplicativos, da beleza visual do produto e de sua usabilidade.

Steve Jobs sabia transformar um evento malogrado em sucesso, como no caso do lançamento do computador pessoal Lisa, em 1983, que não fez o menor sucesso, até porque seu preço era muito elevado, na faixa de US$ 11 mil. Com mouse e interface gráfica com ícones, o Lisa foi, na verdade, o precursor do Mac, lançado em 1984. O novo computador tinha cinco qualidades extraordinárias: 1) facilidade de uso (user friendly); 2) estabilidade; 3) maior capacidade de processamento; 4) extraordinária flexibilidade no processamento de imagens e 5) abundância de software para multimídia e aplicações educacionais.

Steve revolucionou a indústria de música com o iTunes, que já vendeu mais de 1 bilhão de músicas na internet e reduziu sensivelmente a pirataria na web, ao vender faixas de CDs isoladamente, a US$ 0,99 cada uma. No cinema, sua contribuição mais criativa foi a Pixar, com desenhos primorosos.

Os lançamentos de novos produtos conduzidos por Steve Jobs eram espetáculos comparáveis aos shows de pop stars. Seus fãs e apaixonados usuários gritavam e aplaudiam cada nova qualidade anunciada nos produtos lançados. Muito diferente do último lançamento, do iPhone 4S, com Tim Cook, seu sucessor na Apple.

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