Uma década perdida para a zona do euro

Com exceção da Alemanha, nenhuma das maiores economias da Europa voltou ao nível de produção do início de 2008

JACK, EWING, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h07

Artigo

A zona do euro está afundando em recessão, declararam economistas nesta semana após a divulgação de números oficiais retratando uma economia em retração. Por alguns parâmetros, porém, a retração já vem ocorrendo há anos.

Com exceção da Alemanha, nenhuma das maiores economias da Europa retornou ao nível de produção econômica do início de 2008, antes da crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos se espalhar para o outro lado do Atlântico, segundo cálculos de dois economistas americanos, Peter Rupert e Thomas F. Cooley. Por contraste, no fim de 2011, os EUA haviam recuperado todo o terreno perdido desde 2008.

Os números sugerem que a Europa entrou no que poderá ser uma década perdida - um período de perniciosa estagnação e potencial desperdiçado que poderá ter efeitos duradouros nos cidadãos comuns. O crescimento econômico que não se realiza representa investimentos em educação que não foram feitos, pesquisas que não foram financiadas, empresas que faliram e carreiras que terminaram cedo demais ou não decolaram.

"Há implicações maiores do que as pessoas pensam", disse Rupert, professor de economia na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. "Há um enorme declínio do capital humano." Nem sempre é fácil identificar com precisão o que sinaliza o começo e o fim de uma recessão. Uma definição comum é dois trimestres consecutivos de queda da produção. Por esse parâmetro, a zona do euro ainda não está tecnicamente em recessão.

A maioria dos economistas concorda, porém, que uma recessão é definida também por outros indicadores, como desemprego, produção industrial e investimento. O mais próximo que a Europa tem de um árbitro sobre a questão é um comitê de economistas reunidos pelo Centro de Pesquisa de Politica Econômica (Cerp, na sigla em inglês), uma organização de pesquisa em Londres.

Na estimativa do comitê, a última recessão da zona do euro terminou após o segundo trimestre de 2009, quando a região atingiu o fundo e voltou a crescer. O painel, conhecido como Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos da Zona do Euro, ainda não começou a analisar se a zona do euro está novamente em recessão. Mas poucas pessoas diriam que a Europa, atingida por uma crise da dívida autoinfligida que começou em 2010, esteve nadando em prosperidade recentemente.

"Isso é mais que um ciclo econômico normal", disse Carl B. Weinberg, economista-chefe da High Frequency Economics em Valhalla, Nova York. "Não consigo pensar em um momento no período pós-guerra nos grandes países industriais em que vimos um reinício da retração antes de o ciclo anterior terminar." Somente a Alemanha está mais rica do que estava no primeiro trimestre de 2008, quando a atividade econômica estava no auge. A França está perto, segundo Cooley, professor na Escola de Administração Leonard N. Stern da Universidade de Nova York. Rupert e Cooley publicam um blog que monitora o ciclo econômico: europeansnapshot.com.

Espanha e Itália estão, de fato, atrás do que estavam nos dias mais sombrios de 2009, depois que o colapso do Lehman Brothers desencadeou a crise econômica global. Os dois países retomaram o crescimento em 2009, mas estagnaram no meio do ano passado. De lá para cá, o Produto Interno Bruto da Espanha declinou por três trimestres seguidos, enquanto a economia italiana vem encolhendo há um ano. Não há dúvida de que eles estão mergulhados numa recessão. Alguns economistas preveem que a França, e mesmo a Alemanha, poderá seguir o mesmo caminho.

Apesar de os Estados Unidos terem recuperado sua situação de 2008 no fim de 2011, isso requereu o dobro do tempo de qualquer outra recessão desde a 2.ª Guerra, segundo Rupert e Cooley. Eles estimam que, se os EUA continuassem crescendo no mesmo ritmo médio que cresceram desde 1950, o país seria hoje mais de US$ 1,5 trilhão mais rico.

Embora os economistas já soubessem que o PIB da zona do euro ainda estava se equiparando ao de 2008, especialistas como Cooley e Rupert vêm analisando as estatísticas para mostrar a amplitude com que a retração afetou as maiores economias da Europa com alta do desemprego, declínio dos gastos de consumo e queda dos investimentos.

Weinberg e outros advertem que a zona do euro está no mesmo caminho que o Japão nos anos 1990, quando a incapacidade de enfrentar a debilitação dos bancos acarretou uma década de estagnação. "Há algumas analogias realmente boas", disse Weinberg. "Os japoneses nunca corrigiram seus bancos. Há uma lição para a Europa nisso."

Os efeitos sociais de tantos anos de desempenho econômico fraco são "muito preocupantes", disse Lucrezia Reichlin, professora de economia na London Business School. As comparações com a década perdida do Japão não devem ir muito longe, disse ela, observando que os europeus jovens foram atingidos com particular dureza pelo crescimento fraco. Na Espanha, mais da metade das pessoas com 16 a 24 anos está desempregada. "Isso seria uma mais uma geração perdida do que uma década perdida", disse Reichlin, que faz parte do comitê que tenta determinar quando as recessões começam e terminam.

Nas melhores circunstâncias, levará um ou dois anos para a economia da zona do euro reagir. E isso só ocorrerá se os dirigentes europeus tomarem as decisões acertadas e a demanda da Ásia e dos Estados Unidos se fortalecer.

As projeções sobre o crescimento da zona do euro são ainda mais espinhosas que o usual porque o padrão econômico é diferente de tudo que a Europa experimentou. Por exemplo, a Europa tipicamente acompanha a economia americana com algum atraso. Agora, parece ter se desacoplado. Ademais, os Estados-membros ricos da União Europeia costumavam se mover mais ou menos em uníssono. Agora, porém, a Itália está se saindo muito pior do que a França, para não mencionar a Alemanha.

Em projeções mais pessimistas, o declínio poderá durar anos. Weinberg, da High Frequency Economics, adverte que mesmo uma depressão não pode ser descartada se políticas fracas conduzirem a várias quebras de bancos.

Parte do declínio da produção econômica na zona do euro reflete os gastos baixos dos governos, no momento em que dirigentes políticos se empenham em reduzir os déficits nacionais. Em países como Itália e Grécia, onde os governos têm fama de perdulários, os cortes de gastos teoricamente beneficiariam a economia dentro de poucos anos ao eliminar a burocracia que obstrui o caminho dos empresários.

As recessões podem até ser benéficas. Elas punem práticas empresariais ineficazes e endividamentos imprudentes. Mas isso só é verdade até certo ponto. "Quando as pessoas falam do efeito purificador das recessões", disse Rupert, da Universidade da Califórnia, "não estão se referindo a recessões de cinco anos". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.