Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Uma economia ancorada na realidade

Se você tem prestado atenção na campanha presidencial americana, já ouviu o enredo neopopulista. A renda dos presidentes das corporações dispara, enquanto a classe média é esmagada. As tendências da globalização trabalham contra o americano médio, e a maior parte dos benefícios vai para o grupo de 1% que está no topo. O enredo não está de todo errado, mas é simplista. Para acreditar nele, precisamos ignorar uma série de fatos complicadores. O primeiro é que o salário médio aumentou rapidamente - 2% em 2006, o segundo maior aumento em 30 anos. O segundo é que, conforme o Escritório de Orçamento do Congresso, a renda da quinta parte mais pobre da população também está em alta. Como Ron Haskins, do Instituto Brookings, observou no The Washington Post, entre 1991 e 2005, ''''a quinta parte inferior aumentou seus ganhos em 80%, comparados com cerca de 50% para o grupo de renda mais alta e cerca de 20% para cada um dos outros três grupos''''. O terceiro fato é que a volatilidade da renda provavelmente não tende a aumentar. A renda,hoje, não é mais instável do que nos anos 80 e 90. O quarto é que os aumentos recentes da desigualdade resultam menos da injustiça da globalização que da realidade segundo a qual o mercado premia cada vez mais a educação e o trabalho duro. Há poucos anos, as recompensas para quem obtinha formação superior pareciam diminuir. Mas dados recentes indicam que o prêmio pela educação está novamente em alta. O quinto fato é que as companhias estão identificando e recompensando os trabalhadores produtivos com mais eficácia. Os economistas Thomas Lemieux, Daniel Parent e W. Bentley MacLeod sugerem que até 24% do aumento da desigualdade no salário dos homens se deve a pagamentos por desempenho. O sexto é que a desigualdade aumenta porque as pessoas no topo da escala de renda trabalham mais. Em 1965, os americanos com menor e maior escolaridade trabalhavam o mesmo número de horas. Hoje, muitas pessoas com alta escolaridade trabalham como cães, enquanto o tempo de lazer do grupo de menor renda aumentou incríveis 14 horas semanais. O sétimo é que não está claro que os grandes beneficiados nesta economia sejam os executivos gananciosos e egoístas que enganam os acionistas. Segundo Steven N. Kaplan e Joshua Rauh, não são os manda-chuvas corporativos que engrossam as fileiras dos podres de ricos, mas os gestores de fundos de hedge. ''''Juntos, os 25 maiores gestores de fundos de hedge parecem ter ganho mais que todos os 500 executivos-chefes do S&P 500.'''' Os lucros dos rapazes dos fundos de hedge não se devem a mudança das normas sociais, favorecendo os ricos. Ocorre que alguns superastros manejam muito capital. O oitavo fato é que pode haver bons motivos econômicos para o aumento dos pacotes de pagamento dos executivos. Quanto maior uma companhia fica, mais um executivo talentoso pode aumentar os ganhos. Nos últimos 25 anos, o valor das maiores companhias dos EUA aumentou 500%, segundo Xavier Gabaix e Augustin Landier. A remuneração dos presidentes dessas empresas também aumentou 500%. O nono é que estamos no meio de uma das melhores eras econômicas de todos os tempos. A pobreza global diminui num ritmo espantoso. A globalização aumenta a renda de cada família americana em cerca de US$ 10 mil por ano. A economia dos EUA, apesar dos boatos, continua avançando. A receita tributária está em 18,8% do PIB, acima da média histórica. O déficit baixou para cerca de 1,5% do PIB, abaixo da média histórica. Isso não quer dizer que tudo vai bem. A desigualdade, obviamente, aumenta. Há provas de que o comércio global produz mais perdedores. Mas o ponto é que a retórica da campanha democrata está criando vida própria e se afastando ainda mais da realidade. Alimentando-se do pessimismo quanto à guerra e da irritação com Washington, os candidatos competem para contar histórias sombrias, indignadas e conspiratórias sobre a economia. Duvido que os republicanos possam fazer muita coisa para salvar seu destino até 2008. No longo prazo, o Partido Republicano pode reagir ocupando o terreno de Bill Clinton e do Conselho de Liderança Democrata que os democratas agora abandonam. Quem entender a globalização terá um futuro brilhante. E, no longo prazo, os fatos importam.

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