Uma escalada de riscos na oferta de energia elétrica

Num único trimestre o risco de racionamento de energia elétrica passou de "zero", em janeiro, como afirmou o ministro Edison Lobão, do Ministério de Minas e Energia (MME), para "baixíssimo", em fevereiro, evoluindo para "baixo", no início de março, segundo o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico. Anteontem, para o governo, o "sinal amarelo" já acendeu, admitiu o secretário executivo do MME, Márcio Zimmermann, em audiência pública na Câmara dos Deputados. É preocupante um serviço público que depende de investimentos de longo prazo, e tem um alto grau de previsibilidade, apresentar tal reversão de expectativas, em tão curto lapso de tempo.

O Estado de S.Paulo

21 de março de 2014 | 02h07

O problema imediato é conhecido: o regime pluviométrico desfavorável provocou a exaustão dos reservatórios das usinas hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste, que mais pesam na geração de energia e que deverão estar com apenas 38,2% da capacidade no final do mês, como estimou há dias o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Mas, além disso, os últimos dias foram pródigos em informações preocupantes.

Primeiro, ficou claro que, sem a geração a toda carga das usinas de energia térmica, por mais cara que esta seja, teria sido impossível evitar um colapso de grandes proporções.

É necessário pagar um custo elevadíssimo por isso (o Preço de Liquidação de Diferenças, PLD, alcançou o recorde histórico de R$ 822,83 o MWh), pois pagá-lo é melhor do que ficar sem energia.

Segundo, para evitar a transferência imediata para o consumidor dos custos dessa aquisição de energia térmica, o governo teve de montar uma operação de engenharia financeira, antecipando R$ 4 bilhões às distribuidoras e prometendo que os bancos emprestarão R$ 8 bilhões para que elas fechem a conta neste ano. Finalmente, para compensar o desequilíbrio, as tarifas terão de ser elevadas do mínimo de 21,9% ao máximo de 42,7%, nos próximos anos, segundo a consultoria PSR.

O secretário do MME disse que o governo não vê necessidade de racionar a energia, segundo a reportagem de Anne Warth e Eduardo Rodrigues, de Brasília, no Estado de ontem. Para as empresas e as famílias, é melhor mesmo que não haja racionamento, cujo custo é enorme.

Mas, se houver colapso, a culpa não será das distribuidoras que não aderiram ao plano de modicidade tarifária, evitando operar com prejuízo, mas do governo, que avaliou mal os riscos da política energética.

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