Uma estatística trágica

Todo começo de ano é a mesma coisa. O número de acidentes nas estradas brasileiras é dos mais altos do mundo e cobra um preço absurdo em vítimas ou com sequelas de todos os tipos. Este não foi diferente. Os números apresentados pelas autoridades mostram uma queda importante no número de vítimas nas estradas estaduais e federais que cortam São Paulo, compensado pelo aumento nos demais Estados. Ou seja, entre secos e molhados, o total de mortes cresceu 13%. De acordo com a polícia, a redução das mortes em São Paulo foi influenciada pela ?Lei Seca?, em vigor há um ano. Todavia, o mesmo não se pode dizer em relação ao que aconteceu no resto do país, onde o número de acidentes com mortos aumentou, agravando significativamente uma estatística.Mas não são apenas as mortes que devem ser deploradas nos acidentes de veículos nas estradas. O número de pessoas que passam a ser portadoras de sequelas permanentes é altíssimo. E maior ainda o das pessoas que sofrem danos menores ou transitórios, mas ajudam a sobrecarregar o sistema público de saúde, encarecendo uma conta que o governo mal e mal consegue pagar.Mas não é apenas o governo, através do SUS e da Previdência Social, que morre com a conta. De verdade, quem paga é a sociedade brasileira, de um lado pela alta carga tributária, sempre insuficiente para enfrentar os custos da saúde pública; e de outro pelo alto preço dos seguros de veículos, de responsabilidade civil, de vida e acidentes pessoais, sem esquecer planos de saúde privados, fortemente afetados por esses números.O dramático para seguradoras e operadoras de planos de saúde privados é que elas podem fazer muito pouco para modificar o quadro. Suas operações baseiam-se fundamentalmente num conceito chamado mutualismo, em dados estatísticos e na lei dos grandes números. Como as estatísticas são ruins e a experiência não aponta nenhuma possibilidade de melhora, pelo menos no médio prazo, tanto as apólices dos ramos de seguros envolvidos, como os planos de saúde continuarão a custar caro, influenciados pelos custos dos acidentes de veículos que colocam o Brasil entre os campeões mundiais nesse tipo de sinistro.Já para o poder público, que é o único com condições de modificar esta realidade deplorável, o exemplo do Estado de São Paulo é um bom começo para repensar ações e procedimentos destinados a diminuir o número de acidentes.Muito embora os motoristas paulistas não fujam muito da média nacional, aonde a imprudência, a imperícia e a negligencia são fatores constantes nas estatísticas, a qualidade das rodovias do Estado é fator preponderante para um número menor de vítimas. Contando com estradas em boas condições, boa parte com pista dupla, São Paulo, através de uma fiscalização mais efetiva, com radares ao longo de suas principais rodovias, tem conseguido reduzir as situações de risco e os desmandos praticados pelos motoristas.É pena que isso não aconteça nos demais estados do país. A começar pelas rodovias, a imensa maioria com pistas simples, passando pela sua conservação e pela fiscalização deficiente, não há como reduzir o número de acidentes. Como atualmente o preço dos seguros está regionalizado, levando em conta os sinistros da região onde há maior exposição à riscos por parte do segurado, a lógica é que os seguros em São Paulo passem a custar menos, em razão da redução do número de acidentes de trânsito. Quando isso ocorrer, o preço maior pago pelos segurados dos outros Estados poderá ser uma ajuda importante para modificar um quadro que não dignifica a imagem da nação. Afinal, não existe nada melhor que a dor no bolso para convencer o ser humano a se mover. Antonio Penteado Mendonça é advogado e consultor, professor do Curso de Especialização em Seguros da FIA/FEA-USP e comentarista da Rádio Eldorado. E-mail: advocacia@penteadomendonca.com.br

Antonio P. Mendonça*, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2009 | 00h00

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