Uma estranha trégua

Juro baixo e liquidez global aumentam tolerância com desequilíbrio fiscal do País

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2016 | 05h00

Segundo dados recentes do Bank of America Merrill Lynch, já existem US$ 13 trilhões de dívida com juros negativos no mundo. O último episódio emblemático dessa situação bizarra foi a emissão nesta quarta-feira, pela Alemanha, de bônus com rentabilidade negativa. A taxa de juro anual foi de -0,05%. Isto é, quem aplica ¤ 1.000 e fica com o título até o resgate em dez anos, recebe de volta aproximadamente ¤ 995.

É uma situação estranha e incômoda para bancos centrais e o sistema financeiro internacional, embora não signifique que a lógica tenha sido abolida. Existem explicações econômicas para o fenômeno, como a fraqueza de demanda no mundo rico, onde se concentram os juros baixíssimos ou negativos.

Segundo um experiente economista e profissional do sistema financeiro, o fato de os juros se tornarem negativos não significa uma “descontinuidade tremenda”, mas apenas a evolução natural de uma conjuntura internacional em que a rentabilidade das aplicações financeiras vai caindo cada vez mais. Assim, mais do que a taxa negativa propriamente dita, o que intriga e assusta é a longa tendência declinante das taxas de juros – movimento que ganhou força depois da crise financeira global de 2008 e 2009 – e os sinais recentes indicando que essa tendência pode durar ainda mais do que o imaginado.

Num país de juros altíssimos como o Brasil, as taxas internacionais superbaixas ou negativas parecem o paraíso. Mas não é bem assim. Para começar, como já observado, trata-se de um sintoma de demanda fraca e, portanto, de atividade econômica combalida.

Em segundo lugar, os juros muito baixos podem provocar bolhas de ativos (como bolsas, imóveis, etc.) e problemas financeiros. Nesse segundo caso, a questão não são só as taxas mínimas, mas também o fato de que a diferença entre as aplicações de prazo muito curto e muito longo é bem pequena. A típica atividade bancária de crédito consiste em captar em prazos mais curtos e emprestar em prazos mais longos. Se a margem entre essas duas pontas é muito comprimida, pode haver risco para os bancos, como se vê no caso de Itália e Alemanha.

Mas há um fato adicional curioso na atual conjuntura econômico-financeira internacional. Muitos analistas e investidores se prepararam para momentos turbulentos diante de eventos, ou riscos, como o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), os problemas bancários na Europa, ligados aos juros baixos, ou a eventual eleição do populista Donald Trump nos EUA.

É uma lista que poderia causar uma subida na aversão ao risco global, com fuga de capitais para aplicações ultrasseguras (como títulos do governo americano ou suíço). Nesse caso, países emergentes debilitados como o Brasil poderiam ser afetados, e teriam de lidar com forte saída de recursos e desvalorização cambial.

Curiosamente, porém, as anomalias e os riscos da economia global não estão neste momento provocando os efeitos descritos acima. Adicionalmente, há sinais de que os juros baixíssimos vão se prolongar mais do que o esperado, com a perspectiva cada vez mais suave e delongada do processo já iniciado de alta da taxa básica americana.

De certa forma, é um cenário positivo para o Brasil. O juro baixo e a ampla liquidez internacional aumentam a tolerância com o desequilíbrio fiscal do País, ao mesmo tempo que a aversão global ao risco mantém-se em níveis moderados, o que ajuda o Brasil a atrair capitais com seus altos juros internos.

Essa calmaria, porém, não tem bases econômicas muito claras e, provavelmente, depende em boa parte da psicologia dos mercados que, como se sabe, pode mudar muito rapidamente. O Brasil usufrui de uma trégua internacional, e deve aproveitá-la para arrumar a casa e se preparar para novas tempestades. A pior estratégia é achar que o refresco é permanente.

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