Uma farmácia que vende até remédios

Com produtos que vão de pães a medicamentos e com lojas apenas em Minas Gerais, Drogaria Araújo quer chegar ao primeiro bilhão

Ivana Moreira BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Sexta no ranking de faturamento da Associação Brasileira de Redes de Farmácia e Drogarias (Abrafarma), a mineira Drogaria Araújo vive às voltas com boatos sobre uma possível incorporação por uma rede maior. Mas a empresa centenária não pretende ser uma peça no provável processo de consolidação no setor. "Não quero comprar e não quero vender", garante Modesto Araújo, o neto do fundador que preside a empresa desde 2004.

O mercado de farmácias e drogarias vem crescendo, nos últimos anos, num ritmo de 20% anuais. As 28 redes filiadas à Abrafarma, que reúnem cerca de 3 mil pontos de venda pelo País, faturaram juntas, em 2009, R$ 14,4 bilhões - quase 25% mais do que o valor registrado em 2008.

Só a Drogaria Araújo vendeu, no ano passado, 103 milhões de itens, o que gerou uma receita de R$ 700 milhões, 20% superior à do ano anterior. Para 2010, a previsão é passar dos R$ 840 milhões. "Já estamos pertinho de R$ 1 bilhão", afirma Araújo.

O que chama atenção é que a rede tem uma atuação concentrada na região metropolitana Belo Horizonte. Todas as 95 lojas da Drogaria Araújo estão nessa área. Ao contrário do que acontece com as cinco maiores do ranking da Abrafarma - São Paulo, Pague Menos, Drogasil, Pacheco e Raia - , que possuem unidades em vários Estados.

A despeito da atuação geográfica limitada, a Araújo consegue ter a melhor receita média por loja do setor. Em 2009, esta média foi de R$ 7,63 milhões. A Pague Menos, que era a maior do País no ano passado - antes da compra da Drogão pela Drogaria São Paulo, em junho deste ano - teve uma receita média por loja de R$ 7,05 milhões. As 340 lojas do grupo registraram um faturamento de R$ 2,4 bilhões. Já a vice-campeã no ranking da Abrafarma de 2009, a Drogasil, com faturamento de R$ 1,7 bilhão em 2009 e 302 filiais, registrou uma receita média por loja de R$ 5,63 milhões no mesmo período.

Modelo de negócios. O faturamento por unidade acima da média está diretamente relacionado ao modelo de negócios da Drogaria Araújo. A rede segue à risca o padrão americano de drugstore, que pode reunir, em um mesmo espaço, serviços, como caixa-eletrônico, e gôndolas com produtos que vão de remédios a balas e chicletes. Uma mistura de farmácia com loja de conveniência.

Em 1996, Modesto levou 59 funcionários para a Flórida, nos Estados Unidos, para que conhecessem o modelo da poderosa rede Walgreens. De lá para cá, o número de itens comercializados pela Araújo só cresce. Mais de 20 mil itens estão cadastrados para venda nas lojas atualmente.

Antes do balcão de medicamentos, que fica sempre no fundo das lojas, é possível encontrar de tudo. Pão para o café da manhã? Brinquedo para um presente de última hora? A Araújo tem, como diz o slogan que virou um bordão na capital mineira. "A Araújo foi a rede que mais vendeu Neosaldina no País", diz Modesto. "E também foi a rede que mais vendeu Coca-Cola, ração para cachorro, gelo em cubo e sorvete Kibon", completa.

Não foi à toa que ele liderou o movimento das farmácias e drogarias contra a determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de agosto de 2009, que proibia a venda de produtos que não fossem medicamentos ou não estivessem incluídos na lista de exceções da agência.

Depois de uma guerra de liminares em ações movidas pela Abrafarma e também pela Federação Brasileira das Redes Associativas de Farmácias (Febrafar), em maio deste ano uma decisão da Superior Tribunal de Justiça garantiu a vitória das farmácias. Medicamentos não podem mais ficar misturados a outros produtos nas gôndolas das lojas. Só podem ser comercializados detrás do balcão. Mas a venda dos itens de conveniência está liberada.

"Já escutei gente da Abrafarma dizer que a sua rede não é padaria para vender pão e leite", conta Modesto. "Acho ótimo que eles não queiram vender porque, aí, continuo vendendo sozinho", completa ele, sem conseguir controlar uma sonora gargalhada.

Apesar da gigantesca lista de itens comercializados, o empresário mineiro garante que medicamentos ainda são seu carro-chefe e representam 60% do faturamento. Além dos industrializados, a rede também atua na venda de remédios manipulados.

Rentabilidade. Para Modesto, ampliar o número de lojas não pode ser um objetivo em si mesmo. O desafio, acredita ele, é aumentar ainda mais o volume de vendas por loja, ampliando a rentabilidade da rede. Por isso pretende ainda expandir muito os negócios dentro de Minas Gerais antes de começar a pensar em abrir uma loja além das fronteiras estaduais.

Para vender fora do Estado, observa o presidente, a Araújo não precisa necessariamente de um endereço físico. "A gente faz entrega em Porto Alegre para um cliente que se mudou e não deixou de comprar na Araújo." Pela internet, a rede de drogarias já vende para diferentes destinos no País.

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