Uma história para contar

Analistas falam das perspectivas de recuperação da economia, embalada pelo avanço das reformas estruturais, mas isso não faz sentido

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2020 | 05h00

Tempos atrás, um certo diretor de política monetária dirigia seu carro para o Banco Central (BC) pela manhã quando percebeu que o pneu havia furado. Parou e, com sua escassa habilidade manual, realizou a troca. Feita a manobra de alta complexidade, percebeu que sua camisa estava suja de graxa. Teve de voltar ao apartamento funcional para se trocar. Com isso, o leilão que o BC fazia todas as manhãs para regular a taxa Selic na abertura dos mercados atrasou. No dia seguinte, um jornal especializado analisava o que chamou de nova estratégia do Banco Central. Com ajuda de analistas, o artigo não só explicava a mudança, como justificava a sua necessidade, elogiando-a. Um dia depois, o pneu não furou, os leilões voltaram para a abertura do mercado e não se falou mais nisso. O mercado precisa, sempre, de uma história para contar o que aconteceu. Nada pode ser por acaso.

A paixão não é mais do que o ato de a gente ficar no ar antes de mergulhar, já disse Caetano. O mercado está apaixonado. Desde 23 de março, quando atingiu a mínima do ano, o Ibovespa já se valorizou mais de 80%. O que tanto se comemora? Analistas falam das perspectivas de recuperação da economia, embalada pelo avanço das reformas estruturais no rastro do acordo do governo com o Centrão. Faz sentido? Nenhum.

O crescimento é lento. O mercado prevê uma queda do PIB de -4,4% neste ano. Isso significa que o crescimento do quarto trimestre em relação ao terceiro será de apenas 0,4%. Para 2021, a estimativa é de crescimento de 3,5%. Como o PIB é calculado pela média do ano e a média de 2020 foi muito baixa, isso significa que o carry-over de 2021 será muito alto, da ordem de 2,7%.

Ou seja, mesmo que o produto fique estagnado, em 2021 a variação anual do PIB será de 2,7%. Assim, uma previsão de 3,5% sinaliza um aumento de apenas 0,8% no ano-calendário de 2021. Por razões sazonais, a atividade do primeiro trimestre é a mais fraca. Com o fim do auxílio emergencial, a queda do PIB no primeiro trimestre será ainda mais forte, da ordem de 4%, sem considerar a sazonalidade. O desemprego, que está em nível recorde, continuará a subir, ao passo que o IPCA poderá superar os 6% anuais em maio. A LCA Consultores prevê que a massa de rendimentos reais cairá 3,1% em 2021, ante uma elevação de 5,5% neste ano, graças ao auxílio emergencial.

As juras de amor à austeridade também estão agastadas. O Orçamento aprovado prevê um déficit primário de R$ 247 bilhões, mesmo com o teto de despesas, o que é quase três vezes maior que o déficit de 2019. O pacto do governo com o Centrão, historicamente comprometido com a incontinência fiscal, reduz ainda mais as chances de aprovação de reformas que, lembremos, são impopulares. Não haverá uma rápida recuperação da economia em 2021.

Mais fácil acreditar que o otimismo da Bolsa de Valores reflete apenas uma alocação maior para países emergentes, no rastro da vacinação nos países ricos e da promessa de um mundo mais normal com a eleição de Joe Biden.

O mercado acionário brasileiro é pequeno. O volume negociado aqui é pouco mais de 1% do mercado global. Qualquer realocação do balde internacional de liquidez entorna o nosso dedal e é suficiente para deixar nossos analistas apaixonados, explicando, [ITALIC]a posteriori[/ITALIC], as razões falsamente fundamentadas de um otimismo tão prosaico quanto passageiro. Nascem-nos as mãos, por um desígnio da Natureza. Vêm, então, os economistas a tricotar luvas que nelas se amoldem. O problema é acreditar que as luvas explicam as mãos. Um dia destes, encontrarão razões para proclamar o fim do mundo, mais uma vez. O mercado gosta de vagar a esmo, ciclotímico, em busca de uma história para contar.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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