Uma idéia estranha em Paris

Comerciantes franceses esperavam o Natal com angústia. Temiam um naufrágio. Após seis meses de crise, donos de mercearias, butiques de luxo ou hipermercados estavam com a pulga atrás da orelha. Mas foi o contrário. Os franceses gastaram muito. Eles se entregaram às compras "descontroladas", segundo observadores especializados. No total, os gastos na festas de 2008 deverão ser iguais ou um pouco superiores aos de 2007. Não demorou para aparecer o tradicional exército de sociólogos, psicanalistas, filósofos para explicar o paradoxo. Eles foram rapidamente convocados às estações de rádio e televisão para despejar os habituais oceanos de banalidades. Dois pontos de vista se destacam. Para uns, a França tem uma poupança enorme. Sendo assim, as famílias esbanjaram as reservas por estar convencidas de que a crise não será longa. Para outros, é o contrário. Os franceses esperam um ano de 2009 execrável: falências, desemprego, suicídios. E resolveram gozar uma última vez antes do desastre, escolheram "morrer sorrindo". É a síndrome do Titanic. Uma idéia estranha circula por Paris: a presente crise não existe. Os políticos a inventaram, por razões obscuras, e os meios de comunicação, encantados, seguiram atrás. Tudo isso é uma mentira, um embotamento dos espíritos. A verdade é que tudo vai muito bem. Uma sondagem de opinião espantosa foi publicada: 50% dos franceses acham que "tudo vai muito bem". Nada parecido com isso na Inglaterra. Lá, as pessoas estão apertando o cinto. As grandes lojas, atoladas em encalhes, lançam liquidações com oito dias de antecedência, na célebre Knighstbridge, na Harvey Nichols, na Selfridges. Woolworths, MFI e Zavvi (ex-Virgin Megastores) estão sob administração judicial. Espera-se a bancarrota de dez cadeias comerciais em janeiro. Para o Natal, as lojas baixaram seus preços de 20% a 50%, mas os porta-moedas ficaram hermeticamente fechados. A explicação seria a seguinte: a economia inglesa está sendo puxada cada vez mais pelos serviços e, sobretudo, os serviços financeiros. O parque produtivo inglês é reduzido e de baixa qualidade. Assim, a crise, que é financeira, atingiu com toda força a Inglaterra, mais que qualquer outro país, e, singularmente, as altas finanças da City, o distrito financeiro de Londres. Há semanas se recolhem os operadores arruinados com pás nas calçadas da City, como se fossem as folhas mortas de outono. Ora, esses traders, jovens luxuosos, esnobes, dândis, aristocráticos e vulgares tinham o hábito de esbanjar as enormes gratificações, suas gratificações imorais, no Natal. Nada de gratificações neste ano. Em lugar das gratificações, chutes no traseiro! Nessas condições, com o traseiro dolorido e os bolsos vazios, quem iria despejar fortunas na Harrods, na Woolworths ou na Knightsbridge? É essa a desgraça da Inglaterra. Já se explicou amiúde aos países subdesenvolvidos que é perigoso basear toda uma economia numa "monocultura", de trigo, milho, cacau ou canela. Isso também vale para os países superdesenvolvidos, como a Inglaterra, que se entregou cegamente a uma "monocultura", a monocultura do dinheiro. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

Gilles Lapouge *, O Estadao de S.Paulo

27 Dezembro 2008 | 00h00

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