The New York Times
The New York Times

Uma ideia na cabeça e o bolso cheio de dinheiro

Assim como a história está cheia de homens ricos com grandes projetos, os bilionários de hoje também têm financiado ideias mirabolantes

The Economist

07 de maio de 2016 | 05h00

O bilionário russo Yuri Milner, que fez fortuna na internet, quer encontrar a resposta para uma formidável questão existencial: “Estamos sozinhos no universo?”. Para tanto, já lançou um projeto com o objetivo de rastrear sinais sonoros no espaço sideral, usando dois dos maiores radiotelescópios do mundo. No mês passado, Milner também revelou a intenção de enviar uma armada de diminutas espaçonaves, não maiores que um smartphone, impulsionadas por raios laser e equipadas com um sem-fim de sensores, rumo ao sistema estelar Alfa Centauri, a 40 trilhões de quilômetros da Terra.

Richard Branson, fundador do Virgin Group, e Elon Musk, presidente e CEO da montadora Tesla, criaram cada qual seu empreendimento galáctico: a Virgin Galactic e a SpaceX. Branson sonha em explorar comercialmente o turismo espacial; Musk diz que, no limite, seu objetivo é “possibilitar que as pessoas vivam em outros planetas”. Houve um tempo em que a corrida espacial era impulsionada pela rivalidade entre capitalismo e comunismo. Agora são capitalistas individuais que a impulsionam.

O espaço não é a única fronteira que os bilionários querem desbravar. Sergey Brin, um dos fundadores do Google, quer levar às frigideiras uma nova versão de carne bovina, criada a partir de células-tronco. Musk planeja “reinventar” as viagens de trem, transportando passageiros em composições que transitariam a quase mil km por hora no interior de túneis de vácuo.

Os magnatas têm particular entusiasmo por projetos que pretendem ludibriar a morte. Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal, proclama: “A grande tarefa inconclusa da modernidade é fazer com que a morte deixe de ser vista como um dado da realidade e passe a ser encarada como um problema a ser resolvido”. Larry Ellison, presidente da Oracle, certa feita disse: “Para mim, a morte nunca fez sentido. Como é que a pessoa pode estar aqui e de uma hora para a outra desaparecer?”. Ambos os empresários realizaram investimentos em diversos projetos que buscam reverter o processo de envelhecimento. Dmitry Itskov, um dos pioneiros da internet russa, diz que sua meta é viver até os 10 mil anos.

A história está repleta de homens ricos com grandes ideias. Os príncipes mercadores que criaram empreendimentos como a London Company, no século 17, pretendiam construir impérios que se estendessem pelos mares afora. Howard Hughes passou os anos 1930 testando aeronaves inovadoras e quebrando recordes aeronáuticos, quase matando a si mesmo no meio do caminho. Também fundou uma clínica médica que, entre outros objetivos, pretendia descobrir a “gênese da vida”. Mas é na era de ouro do capitalismo americano que se encontra um paralelo mais próximo com o que vem acontecendo atualmente.

Entre fins do século 19 e início do 20, observou-se enorme concentração de riqueza nas mãos de indivíduos que haviam criado suas próprias empresas. Andrew Carnegie e John Rockefeller mantiveram o controle da maioria das ações de suas companhias, exatamente como fizeram os fundadores do Facebook e do Google. Naquela altura, o sistema político se mostrava incapaz de lidar com o ritmo das mudanças: nos EUA, a paralisia resultava de impasses e conformismo; na Europa, o sistema sucumbiu a paixões instintuais. Vários empresários, sentados em fortunas criadas com novas tecnologias, sentiram-se no dever de fazer alguma coisa, seja com o intuito de encontrar soluções para os problemas que os políticos não conseguiam resolver, seja para pôr em ordem o caos resultante de sua inação. O Estado hoje pode até ser muito maior, mas suas limitações não são menos gritantes.

Diversos industriais, incluindo William Lever, na Grã-Bretanha, J. N. Tata, na Índia, e Milton Hershey, nos Estados Unidos, criaram cidades operárias a fim de, no mínimo, combater os males da civilização industrial e, eventualmente, criar um novo tipo de ser humano. Carnegie, um barão do aço, e o inventor da dinamite Alfred Nobel, ficaram obcecados com a ideia de acabar de uma vez por todas com as guerras. Henry Ford lançou uma série de iniciativas ambiciosas, destinadas a melhorar o mundo, entre as quais se incluía a eliminação das vacas, pelas quais o empresário nutria verdadeira aversão. Em 1915, Ford embarcou uma série de empresários importantes e pacifistas num navio e os despachou para a Europa, na esperança de pôr fim à 1.ª Guerra e “tirar aquela turma das trincheiras”. “Grande Guerra termina no Natal”, anunciou uma manchete do New York Times. “Ford diz que vai pôr um ponto final no conflito.” Em 1928, o industrial tentou recriar uma fábrica americana no meio da Floresta Amazônica.

Toda moda é passageira. Hoje em dia, nenhum bilionário investe a sério na paz universal. Mas a psicologia dos podres de ricos parece continuar a mesma. Bilionários reformistas de todos os tempos exibem a mesma mescla estapafúrdia de boas e más qualidades: os sonhos de grandeza convivem com a genialidade para solucionar problemas práticos; a ingenuidade, com a criatividade; a imodéstia, com o altruísmo.

Equívocos. A disputa de egos é acirrada: assim como querem comandar as empresas mais bem-sucedidas, os ricaços competem entre si para formular os projetos mais ousados e sensacionais. Isso ajuda a explicar por que, na corrida espacial dos bilionários, que começou com a ideia de pôr foguetes em órbita, agora já se fala em mandar espaçonaves a Alfa Centauri. Não são poucos também os casos de esforços equivocados. Os US$ 100 milhões doados pelo fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, não resultaram em muitas melhorias para a rede de ensino de Newark, capital do Estado de Nova Jersey.

O experimento amazonense de Ford foi por água abaixo quando os empregados se recusaram a aceitar algumas de suas regras, que incluíam uma alimentação em moldes americanos e a participação em danças country. Sua missão para acabar com a 1.ª Guerra ganhou ares patéticos: a imprensa apelidou o navio de “Nave dos Loucos” e os noruegueses chegaram à conclusão de que Ford sofria de stormannsgalskap, isto é, a “loucura dos grandes homens”.

Acontece que a loucura traz mais benefícios do que prejuízos. Os empreendedores de bolsos fornidos não contribuem apenas para aumentar o número de projetos lunáticos: também acodem com novas formas de pensar sobre velhos problemas. Com sua ideia de usar astronaves minúsculas e raios laser – em vez de grandes espaçonaves e combustível sólido para foguetes – para tentar estabelecer contato seres alienígenas, Milner põe em questão certos pressupostos jamais contestados da burocracia espacial americana. Os bilionários mais talentosos são geniais na hora de combinar ideias grandiosas com pragmatismo ferrenho.

A Gates Foundation persegue seu objetivo de acabar com a poliomielite e a malária com uma atenção aos mínimos detalhes, típica dos melhores projetos corporativos. E certas ideias mirabolantes acabam sendo benéficas mesmo que não atinjam seus fins: o Carnegie Endowment for International Peace e o prêmio Nobel da Paz contribuíram para melhorar mundo, mesmo que não tenham acabado com as guerras.

Não há como mudar o mundo sem tratar como “problema a ser resolvido” aquilo que a maioria das pessoas vê como um dado da realidade.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.