Uma incerteza depois da outra
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Uma incerteza depois da outra

A economia brasileira vive hoje um quadro especialmente carregado de incertezas, que turva o horizonte e põe as pessoas na defensiva

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2021 | 08h00

O ser humano nasce e já se sente ameaçado. A emoção primordial é o medo, como já identificara Thomas Hobbes, no século 17.

Uma das principais fontes do medo são as incertezas – é o diabo que está por perto, mas é invisível. “No escuro, some a confiança (sublata lucerna nulla est fides)”, advertia o poeta Catullo, no século 1 antes de Cristo.

A economia brasileira vive hoje um quadro especialmente carregado de incertezas, que turva o horizonte e põe as pessoas na defensiva. E quando prevalece a defensiva, as mesmas incertezas parecem ainda maiores.

A incerteza mais recente é a nova cepa do coronavírus, a variante Ômicron. Suspeita-se de que seja altamente transmissível, que ataca até mesmo os totalmente vacinados. Mas ainda não se sabe sobre seu grau de letalidade e se as atuais vacinas serão capazes de combatê-la.

Daí seguem-se outras incertezas: até que ponto será preciso exigir o distanciamento social, o recesso de empresas e o quanto a atividade econômica voltará a ser paralisada?

Outras incertezas já estavam no radar. Até agora não foram normalizados os fluxos de mercadorias em escala global. Grande número de indústrias não consegue produzir porque insumos e peças não chegam às linhas de montagem. Com base nisso, muitos países fixaram políticas protecionistas.

A inflação continua corroendo o poder aquisitivo no mundo todo, especialmente no Brasil. Os bancos centrais já começaram a puxar pelos juros e deverão aprofundar essa política – o que contribuirá para frear o consumo e a produção. Mas, pelo menos na área do petróleo, já se vê recuo acentuado nos preços. Se essa tendência se confirmar e vier a ser reforçada, boa parte da inflação de custos pode regredir, inclusive no Brasil. Mas esta também não constitui uma certeza. Apenas uma tensão a mais, digamos assim.

E voltando ao Brasil, não há nenhuma segurança de que as reformas sejam votadas num ano eleitoral. O rombo das contas públicas tende a se alargar. É possível que auxílios emergenciais reduzam os estragos no consumo produzidos pelo desemprego e pela perda de renda, mas não a ponto de viabilizar forte avanço do setor produtivo. O agronegócio pode descolar-se do quadro recessivo, mas a indústria tende a continuar prostrada e pressionada com aumento de preços e falta de insumos.

 

O debate eleitoral e, mais do que isso, o jogo político miúdo podem espalhar mais neblina na paisagem. A Pesquisa Focus prevê avanço do PIB em 2022 de apenas 0,58%. O gráfico acima mostra como as expectativas para o PIB e para o IPCA (inflação) foram se deteriorando com o aumento das incertezas políticas e fiscais. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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