Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Uma minicidade encravada no campo

Agronegócio se firma como uma grande indústria a céu aberto, com condições de trabalho e moradia muito distantes dos boias-frias

Márcia de Chiara, Campo Novo do Parecis (MT)

20 de março de 2016 | 03h00

O operador de máquina Carlos Vieira, de 33 anos, está em um mundo à parte dos índices de desemprego, que não param de crescer na indústria e no comércio, e, em Estados como São Paulo, já passam dos dois dígitos. Contratado há 12 anos da fazenda Itamarati Norte, Vieira está, neste momento, concentrado em planejar as próximas férias. Assim que terminar a colheita da soja, ele vai visitar a família em Cáceres (MT). No ano que vem, em maio, vai viajar para Recife, com um pacote que inclui passagem e hotel e já está sendo pago. “Vou de turista, com meu filho e minha irmã”, conta. Será sua primeira viagem de avião. 

Vieira é um dos 2,1 mil funcionários da área de agronegócio do grupo Amaggi. Pelas oito horas diárias que trabalha de segunda a sexta, além do sábado até as 12h, ele ganha R$ 1,8 mil. Recebe também hora extra e bonificação, dependendo do rendimento da safra. Com as economias, já comprou um Prisma zero, cuja última prestação está prevista para outubro. “Depois disso, vou segurar um pouco”, disse ele, enquanto pilotava uma colheitadeira.

Na cabine da máquina com ar-condicionado, a temperatura não passava de 21ºC. Bem mais fresquinho que os 30ºC do lado de fora. Tem frigobar com água gelada e música ambiente. Para comandar a máquina com uma grade de 40 pés, aproximadamente 12 metros de largura, é preciso pouco esforço, mas muita atenção. 

A direção é hidráulica, o piloto automático e um joystick, semelhante ao usado em videogames, auxiliam nas manobras. Mas ele precisa estar atento para desviar das pedras escondidas no meio da soja que podem danificar a máquina, avaliada em R$ 1,2 milhão.

Um aparelho de GPS fornece a localização exata do talhão e no tablet são apontados os principais registros, como a umidade do solo e a rotação da máquina, por exemplo. “Quando a umidade do solo está acima de 22% não posso colher”, disse Vieira, explicando que, acima dessa marca, o gasto com a secagem do grão é maior.

Nos últimos dois anos, o grupo gastou mais de US$ 120 milhões em máquinas agrícolas. Mas, segundo Pedro Valente, diretor da área de agronegócio da companhia, o grande investimento foi no treinamento de pessoas. No ano passado, foram 22 mil horas de treinamento. “Não existe sucesso no agronegócio se não tiver gente capacitada”, disse o diretor. 

Esse treinamento já se traduziu em ganhos de produtividade. Na safra 2011/2012, a melhor em resultados para a empresa, cada funcionário era responsável pela produção de 115 hectares. Na safra passada, essa relação tinha subido para 136 hectares. Valente argumentou que não houve demissões no período. Por conta da maior produtividade dos empregados, foi possível expandir a área de produção, mas sem novas contratações.

Cautela. Apesar do cenário favorável que, por ora, prevalece no agronegócio – enquanto os demais setores da economia estão paralisados e demitindo trabalhadores –, o operador de máquina está cauteloso. Depois de quitar o carro zero, ele tinha planos de dar entrada na compra da casa própria. “Fico meio assustado com a situação do País”, disse ele.

Enquanto os cenários político e econômico não melhoram, Vieira pretende continuar morando dentro da própria fazenda numa minicidade, com casas de 120 metros quadrados para 400 famílias, criada pela própria companhia. De acordo com a empresa, o preço do aluguel é simbólico. 

Nessa cidade, os trabalhadores têm escola e creche para os filhos, clube, um comércio local, com supermercado e galeria de lojas, igreja e até um hotel. Uma estrutura que nada lembra a de boias-frias.

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