Uma no cravo, outra na ferradura

Análise: Roberto Luis Troster

ROBERTO LUIS TROSTER É CONSULTOR, DOUTOR EM ECONOMIA PELA USP, FOI ECONOMISTA-CHEFE DA FEBRABAN, DA ABBC, PROFESSOR DA USP, PUC-SP. , O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2012 | 03h09

O esforço do governo em expandir o crédito é meritório, em razão de seu potencial como propulsor do crescimento sustentável. Todavia, o desempenho até agora é frustrante; o que pode ser um acelerador está se tornando um freio.

É fato, os juros caíram, e os níveis observados estão num piso histórico. O Banco Central informa que as taxas médias para pessoa jurídica e física em agosto foram 23,1% e 35,6%; a Anefac, que faz esse levantamento há mais tempo, relata 50,1% e 101,7%, respectivamente. O Brasil continua com o crédito mais caro do mundo, mas nem sequer sabe exatamente o quanto.

Mesmo com a Selic caindo e a pressão do governo, há instituições que aumentaram suas taxas. A rentabilidade do sistema bancário caiu, a inadimplência subiu a um nível sem precedentes e a expansão dos financiamentos é anêmica. O avanço é resultado do esforço dos bancos públicos.

Para tanto, o governo já aportou o equivalente a um Proer nessas instituições e, se ficar só nisso, deve ser comemorado. Mesmo assim, a relação crédito/PIB brasileira continuará baixa, cerca da metade de seu potencial de expansão. É necessário mais do que a pressão dos bancos públicos para fazer o crédito deslanchar.

O primeiro passo, e o mais importante, já está dado: é a vontade política, a determinação de avançar. O problema é que o diagnóstico está equivocado; insistindo-se nessa linha, o sistema continuará a apresentar resultados fracos e a postergar a hora da verdade.

Além das taxas elevadas, há mais distorções: a oferta de crédito é volátil e concentrada - este ano os empréstimos para pessoa física de menor valor cresceram 3,4% e os maiores subiram 18,3%, e o processo de desalavancagem dos superendividados vai demorar anos para ser absorvido, se nada for feito.

A raiz desses problemas é complexa e tem seis componentes: fragmentação, dinâmica, custos, concorrência, concepção e transparência. A sua correção demanda uma nova engenharia para o sistema e a eliminação de distorções como o IOF, a indexação de ativos e passivos, os compulsórios, a tolerância com abusos e as assimetrias de informação.

Há países como os Estados Unidos que estão pagando caro a complacência com as falhas da intermediação e os erros no seus ajustes; há outros, como a Islândia, que rapidamente corrigiram os problemas e colocaram os bancos a serviço do crescimento; e o Brasil?

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