Uma nova migração no mercado financeiro

Em 2011, mais de 200 mil profissionais foram demitidos em Wall Street, principal centro financeiro do mundo. Muitos deles estão vindo para o Brasil para trabalhar em bancos ou montar um negócio do zero

LÍLIAN CUNHA, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2012 | 03h05

IDADE: 27 anos

O QUE FAZ: Especialista em

companhias farmacêuticas

POR QUE O BRASIL? Visitou o País em 2002. Quando voltou, seis anos depois, viu outro Brasil, mais desenvolvido

Sou inglês e fiz faculdade de Biologia. Fui recrutado pouco antes de me formar, em 2006, para trabalhar no mercado financeiro, analisando empresas do setor farmacêutico, em Londres. Nessa época, já conhecia o Brasil. Vim para cá quando tinha 18 anos, de férias. Voltei em 2008 e tive uma surpresa: vi outro País. Era incrível como havia mais hotéis, lojas, empresas. Era nítido que todos tinham mais dinheiro. Enquanto isso, em Londres, o ambiente ia ficando ruim. A cada dia, via um fundo fechando. Os mercados encolhiam à medida que até pessoas mais simples, não só os grandes investidores, procuravam aplicações mais seguras. Muitos amigos largaram seus empregos e foram para a África do Sul, China e Índia. Mas vi uma oportunidade que ninguém estava vendo: o Brasil. Escrevi minha carta de demissão em junho e cheguei aqui no final de agosto. Vim sozinho. Fui primeiro a São Paulo, onde tenho amigos. Mas não ia dar certo. Todo mundo falava inglês comigo. Como ia aprender português? Decidi ir para Porto Alegre, onde moro agora. Aqui só falo português. Na minha classe de português para estrangeiros, há muitos executivos de multinacionais transferidos para cá. Quero, além de falar como os brasileiros falam, entender como pensam. Por exemplo, já vi que há muita burocracia e nepotismo. É como a Londres de 30 anos atrás. Meu plano é passar um ano estudando e entender bem como tudo funciona. Depois, volto para o mercado financeiro ou monto uma empresa de internet. O brasileiro gosta de consumir e o commerce eletrônico ainda tem muito que se desenvolver aqui."

IDADE: 33 anos

O QUE FAZ: especialista em serviços financeiros

POR QUE O BRASIL? "Sei como funcionam as coisas lá e aqui. Quero fazer a ponte para investidores que vêm para o País"

Sou de Brasília e fui a Londres fazer MBA em 2006. Minha turma foi a última que pegou o mercado bombando: todos eram disputados por bancos, como Goldman Sachs e JP Morgan. Mas aí veio a crise. A turma seguinte não teve eventos de recrutamento no campus. Foi tudo cancelado. A essa altura, eu já era analista na Sanford C. Bernstein, gestora de investimentos da City, o centro financeiro de Londres. Lembro que no primeiro ano recebi 100% do salário anual como bônus. A crise foi crescendo e os bônus encolhendo. Caíram para 60%, 50%, até que, depois de 2008, nunca mais tivemos bônus. O pior eram as rodadas de demissão. A primeira foi em 2008. Sobrevivi. Depois vieram a segunda, a terceira. Em 2010, saí da Bernstein para o Merrill Lynch. A situação parecia ter melhorado e começamos a achar que a crise estava passando. Mas veio 2011 e a história se repetiu. O sentimento é que ela veio para ficar. Conversando com clientes, eles me diziam: 'O que você está fazendo na Europa? Vai para o Brasil ganhar dinheiro!' Ouvi isso inúmeras vezes e comecei a pensar. Montei um plano de negócios e voltei em novembro. Estou montando uma butique de investimento, a Sigel Capital, A ideia é ajudar empresas a crescer, por meio de aquisições, fusões, abertura de capital, etc. Em um mês, já tenho mais clientes do que achei que teria só em um semestre. Meus colegas de MBA? Muitos estão vindo para cá."

Era uma manhã de setembro com temperatura amena em Nova York quando milhares de pessoas tomaram o Zuccotti Park, gritando palavras de ordem e levando cartazes com frases contra o capitalismo.

"Definitivamente, Wall Street está perdendo o sex appeal", pensou Thomas Grimm, diretor de um fundo de investimentos americano. Com uma carreira de onze anos no mercado financeiro mais importante do mundo, Grimm não é do tipo que reprova os manifestantes do "Occupy Wall Street" (Ocupe Wall Street). Mas, no momento, o que esse americano está fazendo é exatamente o contrário: ele e a esposa, a advogada brasileira Denise Hirao, estão fechando o apartamento em Manhattan e arrumando as malas para deixar Wall Street para trás. O destino? Brasil.

Profissionais de grandes centros financeiros, como a City de Londres e Wall Street, estão vindo para o País para trabalhar nos bancos e companhias do mercado nacional ou para montar suas próprias empresas. Não há estatísticas de quantos são. Mas não é difícil encontrá-los.

"Importamos dois", conta Daniela Bretthauer, analista-chefe da Raymond James. Outras instituições, tanto estrangeiras quanto brasileiras, estão aproveitando essa migração de profissionais que fogem da crise nos Estados Unidos e Europa.

Não é para menos. A maior parte das grandes companhias do mercado financeiro americano e britânico anunciou demissões em massa. A mais recente foi na semana passada: o Morgan Stanley está cortando 1,6 mil vagas no mundo, 580 só na sua base, em Nova York. HSBC e Bank of America já haviam informado baixa de 30 mil empregados, cada. Contas preliminares mostram que, só em 2011, mais de 200 mil profissionais de Wall Street foram demitidos.

"Mesmo que você não seja demitido agora, não dá para continuar lá sabendo que pode ser incluído nos próximos cortes", diz João Valli, ex-analista de empresas de bens de consumo do Merrill Lynch, em Londres. Natural de Brasília, Valli decidiu deixar a City e voltou para montar uma butique de investimentos na capital federal(leia abaixo).

Expansão. O mercado financeiro brasileiro ainda está a anos luz do que é Wall Street. Mas é isso que está atraindo esses profissionais: o espaço para crescimento.

"Ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, nosso mercado de capitais está em expansão", diz Alberto Kiraly, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Um dos indicadores desse crescimento são as captações de investimento de empresas brasileiras por meio de títulos de renda fixa. "Elas dependem só do desempenho do mercado doméstico, por isso refletem o que acontece aqui, sem contaminação da crise externa", explica Kiraly. Até novembro, a oferta desses títulos somava R$ 77,7 bilhões - R$ 2,3 bilhões a mais que no mesmo período de 2010.

"O mercado de renda variável, que inclui a emissão de ações, também deve crescer", diz Kiraly. Em 2011, os investimentos nessa área se intimidaram com a crise na Europa. Por isso, esperam na gaveta 67 ofertas públicas que valem juntas R$ 28 bilhões, todas em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). "Ao primeiro sinal de estabilidade, os investidores devem voltar e as ofertas serão concretizadas", diz Kiraly.

Outro indicador do desenvolvimento do mercado é o investimento direto estrangeiro. Em 2011, ele deve passar a marca de US$ 65 bilhões, o que ajuda financiar o déficit em conta corrente de US$ 53 bilhões.

Milionários. Mas há uma estatística em especial que faz brilhar os olhos de muitos estrangeiros e brasileiros expatriados: 19 pessoas se tornam milionárias a cada dia no Brasil, desde 2007, segundo estudo apresentado em Miami, na conferência Private Banking Latin America 2011, há um mês. "Ninguém quer ficar de fora de um mercado assim", diz o executivo da Anbima.

Nesse ambiente, bancos e empresas precisam ter profissionais altamente especializados nas áreas financeiras e de negócios. "Várias companhias têm me pedido para buscar profissionais de Wall Street, tanto estrangeiros como brasileiros", diz Angélica Wiegand, da empresa de headhunters CTPartners Brasil.

"Não temos nenhum índice, mas vimos notando pessoas em grandes bancos internacionais pedindo transferência para o Brasil", diz Rodrigo Soares, da empresa Hays, especializada em recrutamento internacional.

A chegada desses migrantes tem sido bem recebida pelo mercado nacional. "São profissionais muito gabaritados, o que é muitas vezes difícil encontrar por aqui", diz Angélica.

Mas nem sempre tudo está a favor dos que voltam. "Contratamos gente de fora porque os salários de profissionais brasileiros inflacionaram muito nos últimos anos", diz Daniela, da Raymond James. "Então, fica mais barato trazer pessoal de fora", diz ela.

IDADE: 36 anos

O QUE FAZ: gestão de private equity

POR QUE O BRASIL? "Em Wall Street, meus amigos só falam em crise. Mas os

emergentes só crescem"

Trabalhar em Wall Street, no início do anos 2000, era muito diferente. Foi quando comecei, no Deutsche Bank, onde fiquei por seis anos. Ninguém falava em corte de custos ou demissão. No banco, trabalhei com 'private equities' da América Latina. Sou americano, de Nova York. Então, resolvi estudar espanhol. No fim de 2007, um ex-chefe montou o próprio fundo e me chamou para trabalhar com ele. Topei. Mas a crise já estava tomando conta de tudo. Resolvi apostar nos emergentes e ser consultor independente, trabalhando de Nova York para clientes nesses países. Enquanto meus amigos que continuavam nos bancos só falavam em crise, comigo era diferente: toda hora aparecia um cliente novo. Em 2010, passei alguns meses na Indonésia, para estabelecer um negócio de 'mobile bank' para uma empresa de lá. A experiência me ajudou a tomar uma decisão. Percebi que não há sentido em insistir em Wall Street. E eu já estava com a Denise (com quem me casei em abril) e havia aprendido português. A Denise é brasileira e está em Nova York há cinco anos. Quando conheci a família dela, em São Paulo, por curiosidade tentei marcar algumas reuniões com empresas que poderiam se tornar meus clientes. Minha expectativa era fazer umas três reuniões. Mas em dez dias, fiz 15. Foi surpreendente. Vi que tinha à frente a chance de entrar em um mercado em alta que precisa de gente experiente. Chego neste mês. Quero viver no País de minha esposa, assim como ela morou no meu. A ideia é trabalhar em consultorias ou montar algo em e-commerce."

IDADE: 34 anos

O QUE FAZ: especialista em renda fixa

POR QUE O BRASIL? Esteve no olho da crise, no Bear Sterns e Lehman brothers

Estava no Banco Central quando fui convidado, em 2002, a ir para o Bear Sterns, em Wall Street. Posso dizer que vi os dois lados da moeda, porque era uma época de negócios muito altos. Anos depois, fui para o Lehman Brothers, em Londres. Tudo ia bem até que um belo dia, operando derivativos de crédito, percebi que, de repente, os bancos não queriam mais fazer negócio com o Lehman. Era a crise começando. Em junho de 2008, o Lehman fez sua primeira rodada de demissões. Metade do meu andar foi demitida. Eu? Fui junto. Fiquei arrasado. Meses depois houve um segundo corte. Amigos demitidos nessa segunda vez não receberam nem o dinheiro gasto em almoços com clientes. Foi quando resolvi voltar. O momento não era bom aqui, mas não tinha emprego lá. Assim que cheguei, não demorou muito, me surpreendi pois fui contratado por um fundo. Hoje, estou em um banco e posso dizer que, desde que voltei, minha remuneração sempre foi maior que em Wall Street. Não penso em voltar. As oportunidades estão aqui. Todo dia recebo e-mail de gente da Espanha, da República Tcheca, de Wall Street e de Londres, todos querem vir."

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