Fernando Scheller/Estadão
Fernando Scheller/Estadão

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

08 Julho 2018 | 05h00

ENVIADO ESPECIAL / LISBOA - É fim da tarde de uma sexta-feira nos arredores de Lisboa. De sua casa em um condomínio fechado no estilo Alphaville, o empresário paranaense Aroldo Schultz, de 49 anos, despacha com os funcionários da sede da empresa de turismo que fundou há 31 anos, em Curitiba. Apesar de Schultz, a mulher, suas duas filhas e os cãezinhos Dior e Chanel viverem em Portugal desde 2014, o sustento da família vem do Brasil. Eles fazem parte de um contingente cada vez maior de brasileiros que mantêm seus negócios girando no País enquanto buscam uma vida mais tranquila em Portugal.

Apesar de Schultz e a mulher Andréa, de 42 anos, terem aberto um serviço de turismo em vans em Portugal, por enquanto, todo o dinheiro é proveniente dos negócios no Brasil. “O negócio em Portugal só se paga”, define Andréa. Depois de muito vaivém entre Curitiba e Lisboa, Schultz conseguiu reduzir a “ponte aérea” e toca a empresa pelo Skype. O casal é também exemplo de um tipo de imigrante que Portugal está buscando com afinco: gente com dinheiro para investir, seja em imóveis ou na abertura de negócios, e que está em busca da qualidade de vida oferecida por Portugal.

Schultz e Andréa obtiveram o visto “golden”, autorização de residência para investidores. Após terem sido feitos reféns em um assalto no condomínio de luxo em que viviam em Curitiba, decidiram empacotar tudo e tentar a vida em terras lusitanas em 2014. Como não se qualificam para a cidadania portuguesa por descendência, tiveram de desembolsar mais de € 500 mil pela casa onde vivem, no Belas Clube de Campo, condomínio que inclui residências, edifícios de apartamentos e um campo de golfe, entre outras comodidades.

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No ano passado, a concessão desses vistos rendeu mais de ‎€ 1,6 bilhão ao governo português, que se abriu a imigrantes porque tem uma grande população idosa – cerca de 20% dos residentes têm 65 anos ou mais. Descontando as autorizações de residência aos dependentes, a cifra bilionária foi arrecadada com 1.292 permissões concedidas em 2017. Cada novo investidor em Portugal trouxe ao país ‎€ 1,28 milhão, em média.

Embora o custo seja alto, Andrea e Schultz dizem que a decisão de deixar o Brasil é definitiva e vale a pena. “A gente aqui tem uma vida mais livre. Da última vez que fui a Curitiba, fui assaltado em uma farmácia”, lembra ele. A permanência, porém, não é livre de “soluços”, como a burocracia portuguesa – que, segundo Andrea, consegue ser ainda mais difícil de navegar do que a brasileira. Ela faz um alerta aos que estão de olho no visto “golden”: além de investir no imóvel, a família precisa ter condições de arcar com os custos de renovação da autorização de residência por cinco anos, que giram em cerca de € 20 mil por pessoa. 

Interesse. O Brasil é a segunda nação em obtenção de vistos “golden”, atrás apenas da China. Só no ano passado, 226 famílias brasileiras se transferiram do Brasil como investidores ou donos de imóveis – ao custo unitário de ‎€ 1,28 milhão, isso significa a transferência direta de ‎€ 289 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) a Portugal. Em dois anos, a concessão desse tipo de visto a brasileiros disparou 340%.

O visto “golden” está longe de refletir o atual ciclo migratório do Brasil para Portugal. Isso porque o investidor que tem cidadania europeia não entra nessa estatística. É o caso do empresário Manoel Barbosa, nascido em Londrina (PR), mas com passaporte suíço.

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Dono da Rota Oeste, uma das maiores redes de concessionárias do Centro-Oeste, ele vive hoje com a mulher e os três filhos no bairro lisboeta de Belém. Enquanto a família permanece em Portugal, Barbosa, de 46 anos, divide-se entre os dois países para cuidar dos negócios. 

“São Paulo me expulsou do Brasil”, diz o empresário, em referência à cidade onde morava antes de se transferir a Portugal, em 2016. “Não estava satisfeito com a qualidade de vida, com o trânsito e a insegurança.” Em 30 dias, a família se organizou para ficar entre 18 e 24 meses na Europa. Após esse período de “experiência”, numa casa alugada em Cascais, balneário de luxo, Barbosa decidiu fincar raízes. Comprou uma casa em Belém e agora vê a permanência em Portugal como definitiva.

Por enquanto, o sustento da família vem do Brasil. Barbosa já fez uma tentativa de abrir uma empresa em Portugal, mas o projeto não foi adiante. Ele vai, porém, ampliar o leque de investimentos imobiliários. No dia em que conversou com o Estado, o londrinense reservou dois apartamentos – um de quatro quartos e outro de dois – no projeto Unique Belém, localizado ao lado do palácio do governo português.

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Os dois apartamentos, que o empresário ainda não decidiu se usará como moradia – caso a família se transfira para o edifício, eles serão transformados em um –, custarão cerca de ‎€ 1,5 milhão. O Unique Belém tem uma corretora dedicada a atender os brasileiros de passagem por Lisboa. Os apartamentos partem de ‎€ 500 mil (R$ 2,3 milhões), segundo a diretora de vendas da incorporadora Casa em Portugal, Lisette de Almeida, justamente a cifra mínima para obtenção do visto golden.

Câmbio. As empresas que fazem a corte aos endinheirados brasileiros, no entanto, começam a se preocupar com a desvalorização do real nesse momento de tensão pré-eleições. Enquanto empresários de maior porte, como Barbosa, continuam a fazer investimentos apesar do euro a R$ 4,60, bolsos menos fundos já começam a adiar a decisão de morar em Portugal. O casal Schultz, que chegou em 2014, acredita que se deu bem ao vir para Portugal antes do início da atual “onda” de imigração. “Se a gente não tivesse comprado a casa lá atrás, não sei se conseguiríamos comprar hoje”, diz Andréa. 

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Fernando Scheller, enviado especial, O Estado de S. Paulo

08 Julho 2018 | 05h00

LISBOA - O Belas Clube de Campo, um dos poucos condomínios fechados de casas e apartamentos no estilo Alphaville nas proximidades de Lisboa, aposta forte nos brasileiros: o projeto, que começou a ser desenvolvido há 20 anos, vai entregar no mês que vem as primeiras unidades de sua segunda fase. E o objetivo é que a presença de brasileiros nessa expansão, que incluirá apartamentos, casas padronizadas e terrenos para construção, chegue a até 70% do total de novos moradores. 

Conhecida pelos condomínios de luxo na região turística do Algarve, no sul de Portugal, a família Jordan, dona do empreendimento, tem laços antigos com o Brasil. O atual presidente da companhia, Gilberto Jordan, de 57 anos, nasceu no Rio de Janeiro, para onde o pai, André, havia se transferido nos anos 60. O avô dele foi o responsável pelo desenvolvimento do Edifício Chopin, no bairro de Copacabana. 

A família está estabelecida em solo português desde 1982 – e agora quer aproveitar o conhecimento que tem do Brasil para atrair mais imigrantes endinheirados para o Belas Clube de Campo.

Jordan afirma que a proposta do condomínio fechado, com guaritas e casas com piscina, está muito mais conectada à cultura da classe A brasileira do que às aspirações portuguesas. “Constatamos que os brasileiros estavam comprando segundas casas em Miami, há uma atração por esse modo de vida dos Estados Unidos”, disse o empresário. “Portugal tem algo a oferecer para essa classe média alta que se identifica mais com a cultura europeia.” 

O conceito de Jordan de classe média alta é bastante elástico, já que o menor apartamento disponível na nova fase do Belas Clube de Campo, de dois quartos, parte de ¤ 400 mil (cerca de R$ 1,8 milhão). O valor de uma casa pode exigir um desembolso superior a R$ 5 milhões, enquanto os terrenos para que o proprietário construa a casa que quiser não saem por menos de R$ 1,4 milhão.

Corpo a corpo. Para buscar esse cliente muito específico e convencê-lo a investir fora do Brasil, a equipe da empresa de Jordan tem uma corretora que trabalha em tempo integral no Rio de Janeiro. Além disso, a empresa está presente em feiras e eventos sobre investimentos em Portugal. Há dois anos, o Belas Clube de Campo chegou a abrir uma loja para promover o condomínio em Portugal no Fashion Mall, shopping center do Rio de Janeiro.

Foi no centro comercial do bairro de São Conrado que a mãe de Fernando de Sá, de 22 anos, encontrou um lugar para o filho – que já morava sozinho na Europa – viver em segurança. Nascido em Belém, no Pará, Sá mora sozinho desde os 16 anos, quando se mudou para São Paulo, para se dedicar à música eletrônica. Há dois anos, transferiu-se para a Europa.

Embora trabalhe principalmente na Espanha, na Holanda e na Alemanha, o DJ decidiu alugar um apartamento em um edifício da primeira fase do Belas Clube, que hoje divide com um primo. Recentemente, comprou uma unidade nos edifícios novos – e mais modernos – que devem ser entregues em agosto, na nova fase do empreendimento. 

“Meu apartamento vai ser entregue com tudo pronto, inclusive os eletrodomésticos, o que é muito funcional”, diz o DJ, que também está no processo de obtenção da cidadania portuguesa. 

 

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Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

08 Julho 2018 | 05h01

LISBOA - A quantidade de brasileiros em Portugal não para de crescer. Nem todo mundo, no entanto, tem o status de investidor, que é recebido de braços abertos pelo governo português. Embora empresários e investidores de grande porte também façam parte da nova onda de imigração brasileira para Portugal, há muita gente que, mesmo com algumas economias no bolso, ainda precisa “se virar” quando chega ao País.

Somente nos últimos três anos, segundo estatísticas oficiais do governo de Portugal, mais de 30 mil brasileiros obtiveram a cidadania por descendência – a alta nas concessões é perceptível a partir de 2015 e coincide com a mudança da legislação, que estendeu o direito a todos que comprovarem ser netos de portugueses.

Depois de vários anos de queda, o total de brasileiros vivendo oficialmente em território português voltou a crescer – saltou de pouco mais de 81 mil para 85 mil, no ano passado. Além disso, documentos de órgãos oficiais também relatam uma alta de italianos vivendo em solo lusitano. No entanto, o próprio governo afirma que esse contingente, na verdade, é composto por brasileiros com dupla cidadania. 

Auxílio. Todo esse fluxo migratório está em busca de oportunidades para ganhar dinheiro. Veterana em Portugal, a catarinense Liliani Wietcovsky é dona de uma empresa de festas nos arredores de Lisboa há seis anos, na qual é sócia da portuguesa Paula Mendes. De tanto atender à crescente comunidade brasileira no país, acabou se tornando uma espécie de consultora de negócios. “Estou pensando em começar a cobrar”, brinca.

A chegada da nova onda de imigrantes brasileiros, a partir de 2014, mudou o perfil da Lima Limão, que por muito tempo trabalhou quase exclusivamente para clientes portugueses – tanto que sua maior especialidade são os batizados, celebração que, em Portugal, é motivo para grandes recepções.

Com a vinda de mais brasileiros de classe média alta para Portugal, esse perfil começou a mudar, conta Liliani. Entraram em cena e se tornaram mais comuns no país as grandes produções para aniversários infantis. Ela diz, porém, que o brasileiro se mostra mais comedido para esse tipo de gasto em Portugal – ainda que não o abandone totalmente. “Se a pessoa gastava facilmente R$ 20 mil em São Paulo, aqui ela se contenta com algo menor, que vai custar €1,5 mil (cerca de R$ 7 mil).”

Conversando com os brasileiros “novatos” no país, a empresária diz que a maior parte das ideias de negócios é relacionada a serviços comuns no Brasil que ainda não são populares em Portugal. “As pessoas querem fazer delivery ou até mesmo abrir salão de festas. Mas eu não ligo, já tenho minha clientela.”

Conselhos jurídicos. De forma mais oficial, o advogado pernambucano Agenor Leite, de 33 anos, que migrou para Portugal há um ano e já conseguiu validar o diploma de Direito do Brasil para trabalhar em escritório português, também auxilia brasileiros interessados em se estabelecerem em solo português. E já consegue transformar esse mercado em renda: para quem busca cidadania ou visto de investidor, ele cobra uma taxa de €250 por consulta jurídica.

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