Uma oportunidade perdida

Quando a TV digital aberta brasileira foi lançada, em 2 de dezembro de 2007, a interatividade era uma grande promessa. Foi prometido que as pessoas teriam serviços parecidos com a internet pela televisão, e que os aplicativos chegariam aos aparelhos pelo ar, junto com o sinal de áudio e vídeo. Cinco anos depois, quase nada aconteceu. O software Ginga, desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e pela Universidade Federal da Paraíba (UFPb), era a única tecnologia genuinamente brasileira do chamado sistema nipo-brasileiro de TV digital, adotado na época.

RENATO , CRUZ, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h05

O Ginga sofreu vários atrasos. Sua especificação técnica foi terminada somente em 2010. A publicação da norma demorou bastante porque, entre outros problemas, os pesquisadores brasileiros descobriram que a primeira versão do software exigia o pagamento de royalties internacionais pouco antes do lançamento da TV digital no Brasil. A televisão aberta interativa acabou sendo atropelada pelos televisores conectados à internet, pelos videogames que se transformaram em centros de mídia e pela própria difusão dos computadores.

A TV digital chegou a ser apontada pelo governo, no lançamento, como uma ferramenta de inclusão social. Em 2007, havia cerca de 50 milhões de computadores em uso no País. Hoje, são quase 100 milhões. Nos últimos cinco anos, os usuários brasileiros de internet passaram de 45 milhões para 94 milhões.

A lan house, que era o principal local de acesso à rede mundial no País, perdeu o primeiro lugar para a residência. O total de acessos celulares avançou de 120 milhões em 2007 para 260 milhões. Isso não quer dizer, é claro, que o problema de oferta de serviços interativos à população de baixa renda esteja resolvido, mas a evolução de outros meios fez com que a necessidade de interatividade na TV aberta fosse enfraquecida.

No começo do mês, o Ministério das Comunicações lançou o programa Ginga Brasil, com o objetivo de estimular o desenvolvimento de conteúdos e aplicações e a capacitação de profissionais e estudantes.

Resta saber qual é o espaço que sobrou para a tecnologia hoje. Existem problemas antigos que não foram resolvidos. Um deles é a incompatibilidade dos conversores de TV paga com o Ginga. Se você é um assinante de cabo ou satélite, não recebe as aplicações de interatividade. Em 2007, havia 5,3 milhões de assinantes de TV no País. Em outubro deste ano, eram 15,7 milhões.

Mas que tipo de interatividade as pessoas querem na televisão? Um executivo do setor costumava falar, há mais de dez anos, que o espectador sentado à frente do aparelho de TV está mais preocupado em interagir com a geladeira. Um grande sucesso, pelo menos até agora, dos serviços interativos oferecidos em televisores conectados e videogames são os chamados "over the top", como Netflix e YouTube, que permitem ao espectador escolher o que quer ver, em qualquer horário. E o celular acabou se firmando como a principal ferramenta de interatividade, que as pessoas usam para comentar os programas nas redes sociais, no momento em que estão assistindo aos seus programas.

Antes de ser definido o sistema de TV digital adotado no Brasil, a ideia de serviços interativos chegou a receber alguma resistência das redes de televisão. Em primeiro lugar, a interatividade plena depende da conexão do aparelho a uma rede de banda larga, que não é operada pelas emissoras de TV. E, se dá para enviar informações pela conexão, também é possível recebê-las, inclusive vídeos. Em segundo lugar, é difícil de prever o comportamento do espectador. E se ele achasse os serviços interativos mais interessantes que a programação?

Depois da estreia da TV digital, as emissoras mudaram de ideia, e treinaram equipes de profissionais para produzir conteúdo interativo. Elas viram na interatividade uma forma de se diferenciar na briga pela audiência, e como uma fonte potencial de receita, já que a melhora da imagem e do som não aumentaram o faturamento. A resistência passou a ser então dos fabricantes, que demoraram a oferecer o Ginga, uma tecnologia brasileira, mais interessados em lançar suas próprias TVs conectadas, com software desenvolvido para o mundo todo.

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