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José Roberto Mendonça de Barros
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Uma pequena revolução empresarial

Quem se desloca em São Paulo agora vive melhor, apesar da crise

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 05h00

Assistimos a uma onda de empreendedorismo no País. Isso já ocorreu em outros momentos, mas as características dessas novas companhias são totalmente diversas das do passado. 

Em todos os casos essas novas empresas (startups) têm em comum os seguintes pontos: 

– Os fundadores são sempre jovens, que estudaram e trabalharam aqui e no exterior. São companhias, portanto, que têm a energia e a ambição de gente moça; 

– As empresas têm uma base tecnológica mais avançada do que a média, desenvolvem novos produtos, novos processos, novas aplicações e, muitas vezes, novos modelos de negócio; 

– Elas já nascem olhando para o mundo todo. Muito rapidamente e por conta própria começam sua expansão para o exterior. Não vão atrás de suportes e subsídios governamentais como fazem as principais associações empresariais do Brasil; 

– Destinam parte substancial de seu faturamento à pesquisa e ao desenvolvimento de seus negócios; 

– A maior parte dos seus recursos é de capital (equity, ou seja, dinheiro de sócios) e vem do setor privado, via diversos tipos de fundos de investimento; 

– O setor público também provê algum suporte para esse tipo de empresa, especialmente, via universidades e órgãos como a Finep. Entretanto, a meu juízo, o trabalho mais antigo e mais relevante nessa área tem sido o da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Essas centenas de empresas (startups) se desenvolvem, no mais das vezes, em incubadoras e centros tecnológicos próximos de universidades. Mais recentemente, empresas privadas abriram unidades aceleradoras, como Itaú, Google, Raízen e outras. Também são inúmeros os centros de co-working, nos quais empreendedores alugam espaço e trabalham lado a lado.

O grande número dessas empresas ainda não é capaz de, por si só, mover o PIB. Entretanto, se o PIB retomar o crescimento, como esperamos, elas vão ajudar a empurrar a economia, principalmente, por seus impactos sobre a produtividade de setores relevantes.

Sem que se pretenda ser exaustivo, minha observação de algum tempo é que, pelo menos, quatro segmentos já estão sendo influenciados: financeiro (pelas fintechs), agronegócio (agricultura de precisão), e-commerce e mobilidade das pessoas. Sobre a revolução da mobilidade pessoal, quero tomar a cidade de São Paulo como exemplo. 

O Uber começou a operar em 2014 e se tornou rapidamente um sucesso. Atualmente, a cidade de São Paulo é a que mais se utiliza de seus serviços no mundo. 

No início, levantou resistências entre os taxistas, que tentaram pressionar a Câmara Municipal para proibir o novo serviço sem, no entanto, conseguir, especialmente porque o apoio entusiasmado dos usuários foi evidente desde o começo.

Também foi importante um estudo realizado pelo Departamento Econômico do Cade, que mostrou que não houve redução do serviço dos taxistas (medido pelas plataformas 99 e Easy Táxi), mas, sim, um expressivo aumento do mercado para todos. 

Rapidamente, as plataformas se espalharam, incorporaram milhares de novos carros e ampliaram suas ofertas. O Uber X para carros menores gerou muitas ofertas (Easy Go, 99 POP, Cabify Lite); apareceram plataformas de táxis guiados por mulheres que só servem mulheres (Femitáxi); o antigo táxi especial (Vermelho e Branco) reduziu e equiparou suas tarifas às dos táxis comuns etc.

Com o aumento da oferta de serviços, o custo da mobilidade caiu e permitiu-se a utilização de um grande número de combinações de modalidades de deslocamento, a preços moderados.

Toda essa movimentação produziu uma enorme mudança no deslocamento na cidade de São Paulo. O índice de lentidão no trânsito de 2016, calculado pela CET, caiu 20%, em relação a 2014. Certamente, a recessão, a generalização da utilização do Waze e a redução da velocidade máxima em muitas vias explicam boa parte da melhora. Entretanto, não podem pairar dúvidas de que a substituição de muitos veículos particulares pela utilização dos aplicativos tem uma parte relevante no fenômeno. 

Menos tempo perdido no trânsito é algo que tem um impacto francamente positivo no bem-estar e na produtividade das pessoas.  Aumentaram as possibilidades de trabalho, com poucas barreiras à entrada. O que se reduziu foi o “cartório”: uma licença para ter ponto em Congonhas pela qual se pagava mais de R$ 300 mil pouco valor tem hoje.

Quem se desloca em São Paulo agora vive melhor, apesar da crise. E parte dessa história se deve às novas empresas e plataformas que facilitam os deslocamentos.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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