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Uma população dizimada

Há elementos suficientes para apontar que boa parte das vítimas da pandemia foi pela desarticulação, falta de rumo e incapacidade administrativa de gestores públicos

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2020 | 20h30

Neste final de semana, estão sendo contabilizadas no Brasil 100 mil mortes e mais de 3 milhões de infectados pelo novo coronavírus, cerca de 1,5% dos brasileiros.

São números que, literalmente, apontam para uma população dizimada. A dizimação era o pior castigo admitido no exército romano, executado em caso de covardia, motim e alta traição. Consistia em condenar à morte um décimo dos soldados de uma coorte ou de uma legião. Era uma pena tão severa que foi aplicada poucas vezes. A última aconteceu no tempo do imperador Otávio Augusto, no ano 17 a.C. 

Como a ação da pandemia no Brasil ainda vai longe, apenas lá por setembro ou outubro será possível ter uma avaliação melhor da extensão dos estragos. À parte a imprecisão das estatísticas, por conta da precariedade dos diagnósticos e das contagens, há elementos suficientes para afirmar que boa parte dessas pessoas foi vitimada pela desarticulação, pela falta de rumo do governo e pela incapacidade administrativa de grande número de administradores públicos. São fatores que vêm estendendo a duração da pandemia e aumentaram seus custos.

O balanço trágico não se limita ao número de infectados e de mortes. A atual geração praticamente perdeu um ano escolar e a evasão deve aumentar. A economia também foi dizimada. O PIB do ano cairá pelo menos 5%, o desemprego alcança 13,3% da força de trabalho, as contas públicas se deterioram, a dívida bruta alcançou 85,5% do PIB, a perda de renda da população derrubou o consumo de mercadorias e serviços. A melhor indicação macroeconômica disso é a queda das importações, de 10,5% nos primeiros sete meses deste ano. A retração da demanda obrigou o Banco Central a derrubar os juros básicos a 2,0% ao ano, já avançando para o campo negativo, uma vez descontada a inflação esperada para o ano (1,63%).

Por todo o País, cerca de 552 mil pequenos e médios negócios ou quebraram ou estão para quebrar. O impacto sobre atrasos nos pagamentos e no recolhimento de impostos ainda é desconhecido, mas será enorme. A execução de projetos de investimento tanto do setor público como do setor privado foi adiada. 

De todo modo, as desgraças apontam para mudanças importantes ou para intensificação do seu ritmo. A resistência à aprovação de reformas já diminuiu e tende a diminuir ainda mais. O agronegócio sairá fortalecido. O processo de digitalização não será apressado apenas porque é preciso modernizar as conexões, mas porque se tornaram instrumento de sobrevivência econômica e social. Em consequência disso, as cidades tenderão a se desconcentrar e, com essa desconcentração, mudarão as formas de mobilidade urbana. O carro elétrico e os veículos autônomos tomarão o espaço da frota alimentada por derivados de petróleo e dirigida por mãos humanas. Aumentará a cobrança pela despoluição do ar, da terra e da água.

Falta saber qual será o impacto da pandemia sobre as relações de poder e sobre os novos arranjos políticos que serão exigidos para a reconstrução da economia e da sociedade. A mortandade atingiu com força a população mais pobre, mas as classes médias saíram com avarias econômicas maiores porque, além de renda e de emprego, viram ser fechadas as portas do futuro profissional. As eleições municipais remarcadas para novembro poderão dar uma melhor ideia disso.

CONFIRA

» Gordura de lucros

Como mostra a tabela, cresce o volume de provisões feitas pelos bancos para dar cobertura a calotes. As condições financeiras de grande número de devedores se deterioraram. Os administradores dos bancos alegam ser necessário aumentar o nível de gordura para enfrentar os sinistros da pandemia. No entanto, o nível da inadimplência até caiu em junho ante maio. Até que ponto os bancos não estão escondendo ou estocando lucros para que não sejam tão cobrados pelo tamanho do spread? 

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