Uma questão de sabedoria

A palavra humildade nos dicionários é definida como: "sentimento de inferioridade em que há fraqueza diante de algo ou alguém", ou ainda: "atributo característico de quem possui o conhecimento sobre seus próprios limites". Na verdade, podemos compor esses dois conceitos. Ser humilde é ter visão precisa de seus valores e limites, ser consciente da sua fraqueza em determinadas situações. Conceito depreciativo? Nunca!

Ruth Duarte, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2014 | 02h06

Em nossas relações sociais não é incomum confundir humildade com inferioridade e submissão. Assim, a impressão que algumas pessoas têm é que indivíduos humildes se curvam diante daqueles que se consideram superiores e agem com passividade ou omissão. Pessoas frágeis então? Ledo e terrível engano!

Em muitos artigos, tenho enfatizado a importância do autodescobrimento em relação às nossas qualidades e às nossas fragilidades. Uma postura de humildade tem um valor fundamental na medida em que, ciente das nossas limitações, ficamos mais generosos com os outros, mais atentos para o autodesenvolvimento e mais abertos para descortinar novos horizontes.

No entanto, não é raro nos depararmos com profissionais em que a humildade passa longe de suas atitudes, sobretudo quando exercem cargo de liderança. Alguns inclusive que sempre agiram com empatia e cordialidade no trabalho, ao assumirem cargo de poder, mudam drasticamente e se deixam levar pela vaidade e pela arrogância.

Acreditam, assim, que o status hierárquico os confere algo tão diferenciado que esquecem sua postura de generosidade e passam a agir conforme os ditames de um ego inflado. Líderes assim não resistem à soberba do cargo que ocupam e contaminam o ambiente com sua arrogância. Tal postura parece justificar um antigo provérbio: "Queres conhecer Inácio? Coloque-o no palácio". Invariavelmente, por trás desta atitude, escondem-se pessoas inseguras e com baixa autoestima.

O americano Jim Collins, ícone da administração e especialista em temas sobre gestão organizacional, ressalta que uma postura arrogante é caminho certo para a ineficácia de uma liderança, comprometendo substancialmente a performance de uma empresa.

Por outro lado, o estudioso aponta que a humildade associada à determinação é um ingrediente poderoso para uma liderança eficaz e construtivo para uma organização. E é realmente. Um verdadeiro líder deve ter uma postura determinada para vencer desafios e ser humilde para reconhecer que sozinho não alcançará resultados. A humildade não se contrapõe com a autoestima, pelo contrário, pressupõe certamente uma boa dose de autoconfiança, inclusive para delegar tarefas, e também não almeja o culto ao ego, e sim o reconhecimento profissional.

A vulnerabilidade de uma liderança encontra-se justamente no que ela projeta no ambiente de trabalho. O gestor que age com arrogância, coloca holofotes para sua imagem, considera irrelevantes as contribuições e opiniões de seus colaboradores e possui dificuldades em admitir suas limitações, consequentemente criará um clima nada saudável e atrairá uma equipe acuada, temerosa e sem proatividade.

Por outro lado, o líder que age com humildade, entende suas próprias fragilidades, usa suas competências com generosidade, se atenta para as habilidades dos seus colaboradores e não impõe sua opinião, permite atrair uma equipe inspirada e comprometida com resultados.

Outros efeitos colaterais extremamente positivos ocorrem quando a humildade faz parte de suas atitudes - esteja você em cargo de liderança ou não: a dimensão exata da realidade; o clima de respeito e liberdade para que os colaboradores e/ ou colegas possam difundir suas ideias; a lealdade da equipe; os círculos de cordialidade que se abrem no ambiente e um imensurável bem estar.

Cabe ainda alguém acreditar que uma postura não humilde tem lugar no mundo atual? Quem pensa assim ainda não entendeu a famosa Lei de causa e efeito.

"Só se aproximando com humildade da coisa, é que ela não escapa totalmente", já dizia a grande Clarice Lispector. Não resta dúvida, agir com humildade é, antes de tudo, uma questão de sabedoria.

*Gerente de carreiras do Ibmec/RJ

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