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Uma temporada de milagres

O eleitorado americano aos poucos vem compreendendo seu erro

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 05h00

Só na próxima semana saberemos se o presidente Trump encerra o ano com o seu primeiro sucesso legislativo: uma complexa redução de impostos – “a maior de todos os tempos, levando a um surpreendente crescimento no futuro”, como ele diria. O Senado ainda está negociando, uma vez que brindes especiais seriam dados a possíveis dissidentes. Pela primeira vez em muitos, muitos anos, os republicanos devem agora contar com grandes déficits para satisfazer sua base.

Há uma razão para essa pressa. Em janeiro, um assento republicano – no Estado do Alabama, onde Trump venceu com 35 pontos porcentuais de vantagem sobre Hillary Clinton – passou para um democrata pela primeira vez em 25 anos. No próximo ano, a maioria republicana no Senado cai para dois.

O que esse projeto de lei fiscal faz é punir os Estados democratas, como Nova York e Califórnia, ao limitar as deduções para os impostos estaduais, usando essa margem para conceder pequenos subsídios a pessoas da classe média baixa. Muitos desses ganhos desapareceriam totalmente em 2025, para reduzir o déficit ao nível obrigatório.

Mas, pior que isso, os cálculos da maioria dos economistas, incluindo o independente Escritório de Orçamento do Congresso, mostram que esse déficit não desaparecerá, como afirmam os republicanos. E, além disso, no fim, os principais beneficiários serão os mais ricos, e não os mais pobres. Só para garantir, a faixa mais elevada de impostos foi reduzida um pouco. Afinal, o Papai Noel prefere descer por chaminés grandes e limpas.

Ao mesmo tempo, as notícias nos EUA no último mês têm cada vez mais se referido a assédio sexual da parte de poderosos: senadores, congressistas, artistas, jornalistas de rádio e TV, etc. Grandes somas de dinheiro contribuíram para comprar o silêncio, mas foi em vão. Renúncias ocorreram, em todos os lados políticos e todas as tendências sexuais. Esse foi visivelmente um fator decisivo no resultado das eleições no Alabama. O número de casos continuará. As reivindicações de um tratamento realmente igual agora representam uma exigência que de forma decisiva estilhaça o antigo “teto de vidro”.

Para Trump, esse fator representa um problema potencialmente grave. Oficialmente, seu secretário de imprensa afirmou que sua eleição – com abundantes alegações de má conduta sexual – resolveu o assunto: o eleitorado decidiu a seu favor. (A comissão nomeada por ele ainda está em busca dos 3 milhões de votos, que teriam sido ilegalmente atribuídos a Clinton, para que ele obtenha uma desnecessária maioria.) Três mulheres já se apresentaram publicamente, e em breve poderá haver mais.

Além disso, a investigação sobre a influência russa na eleição de 2016 segue adiante. O segundo conselheiro especial, Robert Mueller, avança. O ex-consultor de segurança nacional, Michael Flynn, declarou-se culpado de evasão de impostos, com sugestões de que agora está cooperando com o inquérito (delação premiada). Já houve reivindicações dos republicanos no Comitê Judiciário da Câmara de que essa investigação é tendenciosa e deve ser encerrada imediatamente. Mais uma vez, Trump continua a acreditar em Putin em vez de crer em sua própria comunidade de inteligência.

Finalmente, em grande parte para satisfazer o núcleo de adeptos de extrema direita, Trump tornou-se o primeiro presidente a declarar formalmente que Jerusalém é a capital de Israel. O primeiro-ministro Netanyahu ficou encantado. Nações árabes e os palestinos ficaram horrorizados. Incursões militares já aconteceram. O acordo de paz que Trump estava prometendo é um resultado muito, muito improvável. Seu genro, Jared Kushner, tem um assunto a menos para se preocupar.

A arte do acordo de Trump revelou-se claramente não representar o caminho a ser seguido, após quase um ano de tentativas. O eleitorado americano aos poucos vem compreendendo seu erro. Sua falta de popularidade continua a estabelecer recordes em praticamente todas as pesquisas.

Dificilmente, há algum líder estrangeiro propenso a aceitar o que ele diz, e pior ainda, o que ele faz. A Coreia do Norte continua com capacitação nuclear em condições de atacar os Estados Unidos. A China faz o menos que pode para ajudar os EUA a conter o irracional Kim Jong-un. O Irã se beneficia das ameaças dos EUA para acabar com seu tratado negociado. O Brexit recebe seu apoio incondicional, ao replicar – no Twitter, claro – as mensagens de um grupo de extrema direita, fazendo com que até a primeira-ministra Teresa May responda negativamente.

Concluo este conto lembrando Ebenezer Scrooge no século 19 de Charles Dickens, em Um Conto de Natal. Inspirado pelo fantasma de seu ex-parceiro Jacob Marley, Scrooge altera seu mau comportamento e se torna bom, generoso e agradável. Talvez no próximo ano vejamos o surgimento de um Trump diferente. Pode-se esperar por milagres. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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