Uma visão da complexa economia global em 2013

Economia vive uma mudança de paradigma: isso exigirá das empresas agilidade digna de Muhammad Ali para prosperar em ambiente incerto

MOHAMED, EL-ERIAN, PRINCIPAL EXECUTIVO, CODIRETOR , DE INVESTIMENTOS DA PIMCO, MOHAMED, EL-ERIAN, PRINCIPAL EXECUTIVO, CODIRETOR , DE INVESTIMENTOS DA PIMCO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h10

Mesmo hoje, quase 40 anos depois daquele evento, algumas pessoas ainda se perguntam como um lutador peso pesado já com certa idade deixou os especialistas estupefatos e derrotou um dos maiores lutadores de boxe que já existiram. Por que estou mencionando isso? Porque a história por detrás dessa grande surpresa esportiva joga uma importante luz sobre como os diferentes segmentos da sociedade brasileira podem navegar melhor no que promete ser um ambiente global complexo e incerto em 2013.

Retornemos a Kinshasa em 1974. O mundo esportivo estava focado na luta - rotulada como "A Pancadaria na Floresta" ("The Rumble in the Jungle" em inglês) - entre Muhammad Ali e o campeão mundial dos pesos pesados George Foreman.

Os especialistas estavam convencidos: Ali não tinha virtualmente nenhuma chance de vencer. E muitos se preocupavam que ele pudesse ser seriamente machucado por Foreman.

A lógica dessa visão era bem sensata. Ali, outrora famoso por "dançar como uma borboleta e ferroar como uma abelha", não estava mais na flor da idade. Ele havia sido derrotado em lutas anteriores. E muitos achavam que ele já deveria ter se aposentado do boxe.

Isso era o oposto de Foreman. Em perfeitas condições físicas e no auge da sua forma para o boxe, Foreman nunca havia sido vencido. Ele vencera quase todas as suas lutas por nocaute, confirmando sua enorme força.

Mas acontece que Ali venceu, e ele o fez nocauteando Foreman no oitavo assalto. O mundo esportivo ficou em estado de choque.

O interessante foi que pesquisadores procuraram analisar o como e o porquê desse resultado surpreendente. E isso incluiu Don Tull, um talentoso professor da London Business School que repetidamente tem nos impressionado com sua capacidade para compreender mudanças de paradigma, incluindo como navegá-las com sucesso.

E o que aconteceu foi que os treinadores de Ali perceberam logo que o seu "método normal" não bastava para Ali enfrentar Foreman. Para triunfar, Ali teria de fazer mais do que "dançar" e "ferroar" como sempre fizera. Desta forma, a equipe de Ali mudou totalmente o seu programa de treinamento.

Para resistir à força de Foreman, Ali precisava aprimorar a sua "absorção". Para conseguir isso, as suas sessões de treinamento foram mudadas para condicioná-lo a absorver o castigo de sparrings (lutadores contratados para treinar com um boxeador), incluindo ex-detentos. E ele fez isso, dia após dia, numa rotina estafante.

Os treinadores de Ali foram mais longe. Perceberam que a "agilidade" de Ali - sua capacidade de desnortear Foreman - não era só uma função do talento decrescente de Ali. Eles também precisavam encontrar uma maneira de cansar Foreman. Então eles chocaram o mundo do boxe ao inventarem o que ficou conhecido como a estratégia "tonto nas cordas" ("rope-a-dope", em inglês).

Quando a luta começou, Ali não dançou em volta do ringue como todos os especialistas esperavam. Em vez disso, ele cometeu o que foi considerado na época um ato de autodestruição. Ele se reclinou nas cordas e levantou a guarda para proteger o máximo possível do seu rosto e do seu corpo.

Durante sete assaltos, Ali absorveu golpe atrás de golpe de Foreman. Mas o impacto era diminuído já que ele usava as cordas para dissipar a força dos golpes.

No início do oitavo assalto, Foreman estava tão cansado quanto frustrado. E esta era a chance aguardada por Ali, e pela qual ele estivera esperando para lançar seu contra-ataque surpresa.

Ali partiu para cima. Ele mudou da absorção para a agilidade, despejando diversos socos bem colocados. Para o mais absoluto espanto dos especialistas, Ali tinha nocauteado Foreman!

Para resumir esta longa história, Ali e seus treinadores brilhantemente perceberam que a mudança de paradigma exigia uma mudança também de mentalidade e de abordagem. E isso fornece percepções importantes para todos aqueles que desejam navegar bem no nosso ambiente econômico global cada vez mais fluido e complexo.

Com a Europa e Estados Unidos ainda com problemas para resolver os seus desafios estruturais e políticos, o resto do mundo não pode mais contar com uma economia global em bom funcionamento. Eles também têm que lidar com o impacto de políticas altamente experimentais dos bancos centrais do Ocidente. E eles deveriam reconhecer que o risco de uma séria ruptura sistêmica será tão maior quanto mais tempo falhem os esforços do Ocidente para promover maior crescimento, desemprego mais baixo, para conter a dívida e reverter a crescente desigualdade de renda, riqueza e oportunidades. Como exemplo, pensem apenas nos desafios enfrentados pela combinação de políticas macroeconômicas do Brasil.

Como virtualmente todos os outros bancos centrais no mundo, o Banco Central do Brasil (BCB) não teve essencialmente nenhuma escolha a não ser reduzir agressivamente as taxas de juros em reação ao prolongado experimento de liquidez do Federal Reserve. Do contrário, fortes fluxos de capital teriam levado a moeda para níveis que iriam gradualmente desindustrializar e enfraquecer a economia doméstica.

A reação do Banco Central brasileiro é uma maneira de "absorver" os golpes provenientes do que muitos qualificam como um comportamento irresponsável por parte do mundo desenvolvido. Mas o Brasil não pode parar por aí.

As autoridades econômicas em Brasília também precisam ajustar suas mentalidades e ferramentas para o novo paradigma dos bancos centrais ocidentais. Isto envolve uma agilidade muito maior na condução da política fiscal e na formulação e implementação de reformas estruturais.

As empresas brasileiras também se deparam com o desafio de adaptar apropriadamente suas modalidades de operação. O acesso a financiamento já está sendo reorientado dos bancos europeus para outras fontes de financiamento. A solidez dos balanços já não é apenas desejável, mas também crucial. Mas o ajuste não deve se limitar à capacidade de absorver os choques de demanda e financiamento provenientes do exterior. O setor privado precisa também estar pronto para reagir às oportunidades de agarrar fatias maiores do mercado global.

Muitas oportunidades desse tipo surgirão em 2013. Esperem algumas empresas europeias se recolherem aos seus mercados locais à medida que buscam se consolidar no contexto de um difícil ambiente operacional. Outras, incluindo certas instituições financeiras e holdings, não terão outra escolha senão a de vender ativos. Diante disto, é fundamental uma grande agilidade operacional por parte das empresas brasileiras, se quiserem se aproveitar dessa atraente dinâmica à medida que vá surgindo.

Como Ali demonstrou em 1974, não existe nada predestinado quando se trata de navegar em mudanças de paradigma. Com a combinação certa de absorção e agilidade, mudança e turbulência podem se transformar em oportunidades e não apenas representar riscos. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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