Unanimidade e prudência do Copom

Foi prudente a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano. É provável que a reunião da quarta-feira passada – na qual a taxa foi mantida no nível que alcançou em julho do ano passado – tenha sido a última com a atual composição do Copom. Não se esperava de um colegiado em vias de substituição – em decorrência do provável afastamento da presidente Dilma Rousseff de seu cargo, bem como de sua equipe, incluindo a do Banco Central –, mas responsável, uma atitude que implicasse riscos à credibilidade da política monetária que poderá ser adotada doravante.

O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2016 | 03h00

Pela primeira vez, desde outubro, a decisão foi tomada por unanimidade, o que pode sugerir uma avaliação mais amena da tendência da inflação, pois, em reuniões anteriores, dois integrantes do Copom haviam votado pela alta da Selic por entenderem que as tensões inflacionárias exigiam um aperto na política monetária.

Uma parte da nota em que o Copom informa sua decisão, de fato, reforça essa interpretação. “O Comitê reconhece os avanços na política de combate à inflação”, segundo a nota. Em seguida, porém, ela observa que a inflação acumulada de 12 meses continua muito alta e que as expectativas dominantes são de que ela continuará distante da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional – de 4,5% ao ano, com uma generosa margem de tolerância de até 6,5%.

Os últimos dados mostram um arrefecimento da inflação, por causa do agravamento da recessão – o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 3,8% no ano passado e, segundo admite o governo, deve encolher entre 3,5% e 4% em 2016 – e da queda do dólar, que baixou da faixa de R$ 3,90 para cerca de R$ 3,50. Mas ela atingiu 9,39% nos 12 meses encerrados em março, mais do dobro da meta e muito acima do flácido limite de tolerância. As projeções predominantes no mercado são de que, no ano, ela ficará perto de 7%. Como justificou o Copom em sua nota, “as expectativas de inflação distantes dos objetivos do regime de metas não oferecem espaço para flexibilização da política monetária”.

Acrescente-se o fato de que a situação crítica das contas públicas, com déficits crescentes, afeta duramente as ações de combate à inflação do Banco Central, para se entender os limites da eficácia da política monetária. O combate simultâneo ao déficit e à inflação continua sendo o grande desafio do governo.

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