Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas
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ONU pede coordenação para evitar fuga de capital de emergentes

Segundo a Unctad, órgão da ONU sobre comércio, há estimativas de que emergentes têm estoque de US$ 2 trilhões aplicados

FERNANDO NAKAGAWA, CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2015 | 14h21

O risco de uma fuga súbita do capital estrangeiro dos países emergentes é uma tema de preocupação da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). A entidade pede que países adotem políticas coordenadas para evitar problemas. A entidade cita que há estimativas de que emergentes têm estoque de US$ 2 trilhões em operações de carry trade (investidor que toma dinheiro em países de juro baixo e investe em outros de juro alto). O montante equivale a "um acidente esperando para acontecer", diz a Unctad.

"As preocupações com uma súbita ou substancial saída desses fluxos começaram com a desaceleração econômica e tornaram-se mais pronunciadas com o aumento da volatilidade dos últimos meses", cita a Unctad que divulgou nesta terça-feira o Relatório sobre Comércio Exterior e Desenvolvimento 2015.  Um dos problemas dessa fuga de capitais é o impacto nos principais preços da economia, como a taxa de câmbio e commodities.

A Unctad nota que após a crise de 2008 o fluxo de capitais estrangeiros para alguns países emergentes foi incentivado tanto pela política monetária relaxada nos países desenvolvidos como pela melhora dos fundamentos econômicos dos emergentes. Mas atualmente o cenário mudou e o rumo do dinheiro é exatamente o contrário.

"Em meados de 2015, os mercados financeiros globais revelaram preocupação com as recessões no Brasil, na Rússia e na África do Sul e com os sinais de desaceleração econômica na China. Os investidores globais, já antecipando uma subida das taxas de juros nos Estados Unidos e uma queda contínua nos preços das commodities, moveram-se rapidamente em direção à porta de saída, deixando os mercados de ações e títulos das economias emergentes", diz a entidade.

Diante dessa reversão, a Unctad defende a adoção de políticas coordenadas para minimizar problemas. "Administrar a volatilidade persistente dos fluxos financeiros de curto prazo exige como resposta políticas internacionalmente coordenadas", defendeu o secretário-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi, em comunicado à imprensa. "Com os países em desenvolvimento contribuindo com mais de 60% do crescimento global desde 2011, as repercussões das dificuldades recentes nos mercados emergentes poderiam ser amplamente sentidas", alerta o secretário.

Estagnação. A Unctad pede que países riscos aumentem os gastos públicos para evitar que a economia global sofra com a estagnação da atividade. O risco de "estagnação secular", diz relatório divulgado nesta terça-feira, "voltou a ser o centro das atenções".

"Diante de uma persistente falta de demanda, os países ricos precisam aumentar a despesa pública, aumentar os salários e estimular a demanda a fim de revitalizar suas economias e colocá-las na rota de um crescimento estável", diz o relatório. No documento, a entidade diz que o fenômeno da "estagnação secular voltou a ser o centro das atenções" diante a aparente incapacidade dos países riscos de retomarem o ritmo pré-crise. Estagnação secular é o termo usado para determinar um longo período de baixo crescimento mesmo com adoção de juros baixos.

No relatório divulgado pela Unctad, a entidade prevê que a economia global deverá crescer 2,5% em 2015, no mesmo ritmo observado no ano passado. "Esta taxa é significativamente inferior à média de 4% dos anos pré-crise. A incapacidade de muitos países desenvolvidos de retomar o dinamismo pré-crise, apesar de vários anos de política monetária acomodatícia, criou o que a Unctad denomina um 'novo anormal'".

O relatório diz que há dúvidas especialmente sobre a força da recuperação econômica na Europa e Japão. "Mesmo nos Estados Unidos, onde a recuperação pós-crise parece mais sólida, os balanços das famílias continuam frágeis e a apreciação do dólar está prejudicando a contribuição das exportações líquidas para o crescimento", diz o relatório.

Erro financeiro. Para a entidade, países desenvolvidos erraram ao apostar muitas fichas nas medidas de incentivo meramente financeiro, o que pode levar ao aumento do endividamento e à criação de bolhas. "O recurso exclusivo das políticas monetárias expansionistas para enfrentar a falta de demanda agregada tem levado empresas a usar lucros para a distribuição de dividendos e investimentos em ativos financeiros ao invés de direcioná-los para o investimento em capacidade produtiva".

Por isso, a Unctad sugere outros instrumentos, como o investimento em infraestrutura. Essa alternativa "tem comprovados efeitos multiplicadores positivos muito significativos em economias em estagnação", diz a entidade. Outra medida sugerida é o aumento dos salários, o que poderia aumentar os gastos das famílias sem exposição a novas dívidas e ainda pode reduzir a pressão sobre os sistemas de previdência, diz o relatório.

"Oito anos após a crise financeira, o mundo claramente não descobriu como mudar a marcha para alcançar o desenvolvimento econômico global inclusivo e sustentável", disse o secretário-geral da Unctad.

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