União Europeia maltratada pela crise

Quando os primeiros abalos da crise começaram, foi dito que a Europa não tinha nada a temer. A União Europeia seria uma espécie de escudo amortecendo os vendavais que chegavam da América. Nós poderíamos dormir sossegados, bem abrigados no nosso "edredon europeu". Seis meses depois, e como estamos ? A UE com certeza salvou diversos países do naufrágio. Em compensação, ela hoje tem uma fenda, quase um grande rasgo, que corta a Velha da Nova Europa, ou seja, de um lado os países da Europa ocidental e, de outro, os da Europa central e oriental. O mal-estar foi manifestado. Os países da Europa do leste e central decidiram se reunir no domingo, dia 2 de março, em Bruxelas, antes da reunião de cúpula do G-20, que vai debater a crise. Podemos falar de dois campos na Europa. Os motivos desse divórcio são inúmeros. Analisemos dois: os Estados mais pobres sofrem mais do que os outros. E acusam os "ricos" (em primeiro lugar Angela Merkel) de não procurarem ajudá-los. Mas há também uma disputa mais fundamental. Atingidos ferozmente pela crise, os poderosos países da Europa ocidental renegam hoje o que adoravam antes, ou seja, o liberalismos mais desenfreado. Nessa conversão, Sarkozy foi, como sempre, o mais barulhento. Há dois anos ele exaltava um liberalismo tão selvagem como o de Margaret Thatcher. Hoje denuncia, com acentos de um profeta bíblico, a imoralidade do mercado, dos bancos, dos traders, dos paraísos fiscais. Quer sepultar o capitalismo mundial e substituí-lo por um novo, onde o Estado meteria o nariz em tudo. Os países da Nova Europa não aceitam essa meia volta. E é compreensível. Eles foram asfixiados, durante meio século, pela União Soviética, que lhes impunha uma economia estatizada. Quando, finalmente, ficaram livres, depois de 1989, se precipitaram como esformeados para o liberalismo mais extremo. E foi muito bom para eles : um boom fulgurante, com crescimentos de dois dígitos. Hoje, renegam ferozmente as medidas protecionistas que se multiplicam nos países ricos. Sarkozy é censurado pelos checos, poloneses, que denunciam o plano de 6 bilhões que a França acaba de aprovar em favor da sua indústria automobilística. A seus olhos, Sarkozy é um incurável "protecionista". Por trás dessa briga, uma questão séria se impõe : os liberais da Europa do leste são os últimos "crentes". Não querem trair o capitalismo que lhes fez tanto bem depois que se libertaram da escravidão comunista. Mas como vão escapar da crise? Como poderão manter o capitalismo num só país enquanto o resto do mundo é afetado ? Alguns países do leste já estão fazendo algumas exceções. A Hungria pediu ajuda ao FMI. A Letônia está no mesmo caminho. A crise começa a mostrar o fim do "ciclo liberal" do qual a Europa oriental foi um brilhante exemplo a partir de 1989.

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