Virginia Mayo/AP
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União Europeia se recusa a negociar com Trump e guerra comercial se intensifica

Resposta vem um dia depois da Europa ser informada de que suas exportações de aço passariam a ser alvo de uma elevação de tarifas

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2018 | 12h21

Num sinal claro do aumento das tensões entre os dois maiores parceiros comerciais do mundo, a Europa anuncia que não voltará a negociar isenções com o governo de Donald Trump e passará a retaliar cada dólar que julgue que tenha sido prejudicada por parte da Casa Branca.

Um dia depois de ser informada de que suas exportações de aço passariam a ser alvo de uma elevação de tarifas por parte dos EUA, Bruxelas recorreu aos tribunais da Organização Mundial do Comércio (OMC), solicitando que a entidade condene a política americana. Além disso, passará a retaliar bens americanos, principalmente dos estados de deputados e lideranças republicanas.

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O governo Trump ampliou os impostos de importação para 25% no caso do aço e 10% para o alumínio, na esperança de proteger os interesses de empresas americanas. Para justificar a medida, a Casa Branca alegou que essa importação estaria ameaçando a "segurança nacional" dos EUA, um argumento polêmico.

Ao longo dos últimos meses, ficou claro para capitais em todo o mundo que Trump estava usando a ameaça das tarifas como forma de forçar governos a renegociar acordos comerciais ou oferecer concessões aos interesses americanos.

Cecilia Malmstrom, comissária de Comércio da UE, deixou claro que Bruxelas não mais aceitaria isso. "Não vamos entrar em nenhum tipo de negociação", prometeu a escandinava. "Ofereceremos diálogo e futuras negociações, sob a condição de que eles retirassem a ameaça. Não agiram assim e aqui estamos", disse a comissária, ao explicar a ação na OMC.

Durante a noite na Europa, um dos principais interlocutores dos americanos na Europa, o presidente francês Emmanuel Macron telefonou para Trump para o alertar que a nova tarifa era "ilegal" e um "erro". Paris qualificou a ação da Casa Branca de "nacionalismo econômico que prejudicava a todos".

Para tentar seduzir o americano, Macron insistiu em sua tese de que o ajudaria a "reformar a OMC". A entidade tem sido alvo de duras críticas por parte do governo americano, enquanto em Genebra existe uma clara percepção de que sua sobrevivência corre sério risco.

Macron havia apostado em uma suposta amizade com o presidente americano para o tentar convencer a não abandonar o acordo nuclear iraniano e não impor tarifas contra os bens europeus. Trump não atendeu a nenhum dos pedidos.

Num primeiro momento, a Europa solicita que a OMC comece a avaliar a legalidade das tarifas americanas. Mas, de forma paralela, vai adotar retaliações contra produtos americanos como jeans, motos Harley-Davidson, uísque e produtos tradicionais como peanut butter. A meta é a de afetar estados que elegeram republicanos ou que possam representar um custo político elevado.

"Nossos amigos americanos estão virando as costas para o multilateralismo e não nos dão opções", disse o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. O secretário de Comércio Internacional do Reino Unido, Liam Fox, qualificou a ação americana de "absurda", enquanto o ex-diretor da OMC, o socialista francês Pascal Lamy, definiu o comportamento dos EUA de "ridículo" e "grotesco".

Peter Altmaier, ministro da Economia da Alemanha, afirmou que espera que a resposta europeia resulte em um "processo de reflexão por parte dos EUA".

Fora da Europa, a reação tem sido dura. No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau, prometeu retaliações de US$ 12 bilhões contra produtos americanos. Para ele, depois de lutar em duas guerras mundiais, no Afeganistão e outros conflitos ao lado dos americanos, seria "inconcebível" considerar que o Canadá seria uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

Assim como os europeus, os canadenses foram buscar produtos símbolos da cultura americana para mostrar sua indignação, além de serem produzidos em locais com forte apoio ao governo Trump. Passarão a ser retaliados exportações de pizzas congeladas, iogurtes, suco de laranja, produtos de manicure, sacos de dormir, geleia de morango e até velas.

No caso mexicano, a retaliação poderia ser de US$ 4 bilhões contra produtos americanos como salsichas, maçãs, carne de porco e queijo. Mas Trump também alertou que qualquer retaliação que sofra poderá ser seguida por uma nova resposta dos EUA contra os produtos europeus. Um dos setores visados seria o automotivo, parte fundamental da economia da Alemanha.

Se Trump seguir essa linha, o impacto sobre a Europa seria bem maior que as tarifas atuais contra o aço. Hoje, os europeus exportam mais de US$ 35 bilhões em veículos para o mercado americano.  Não por acaso, empresas alemãs se apressaram nesta sexta-feira para anunciar que preferem negociações com os americanos. No caso da Volkswagen, a empresa emitiu um comunicado em que sugere um "novo acordo entre UE e EUA".

A Comissão Europeia, de seu lado, precisa adotar uma postura de equilíbrio entre seus diferentes interesses exportadores e uma resposta dura. "Não estamos numa guerra comercial. Mas numa situação muito difícil. Se houver uma tarifa contra carros, será muito preocupante", ponderou Malmström.

Ela, portanto, pondera. "Não usamos o termo guerra comercial, já que ele tem um efeito psicológico. Ainda assim, a situação é preocupante e os EUA estão jogando um jogo perigoso", completou.

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