União Européia suspende a importação de carne brasileira

Decisão foi tomada depois de disputa sobre o número de fazendas que o Brasil teria direito de certificar

Jamil Chade de O Estado de S. Paulo, e Eduardo Magossi, da Agência Estado,

30 de janeiro de 2008 | 09h21

A carne brasileira não poderá ser exportada para a União Européia por tempo indeterminado. Trata-se de uma decisão dos europeus, que foi tomada depois de uma disputa em relação ao número de fazendas que o Brasil teria direito de certificar. O problema começou no final do ano passado, quando a União Européia anunciou que estava impondo novos limites às exportações brasileiras por questões sanitárias. O governo brasileiro passou então a verificar cada uma das fazendas e, pelos critérios exigidos pelos europeus, certificou mais de 2,6 mil propriedades. Mas os europeus já haviam antecipado que, pelas novas normas, dariam o sinal verde a apenas 300 fazendas.    O governo brasileiro avaliou, no entanto, que se todas as fazendas cumprem os requisitos, não caberia ao Ministério da Agricultura selecionar apenas 3% delas. "Como faríamos para selecionar uma fazenda e não a outra se estão em condições de igualdade?", questionou um funcionário do ministério em Brasília.   Em Bruxelas, os europeus não escondiam a irritação com a atitude brasileira. Primeiro, pelo número de fazendas, considerado exagerado. Outra confusão foi o fato de cada Estado ter feito uma lista separada. A própria missão diplomática do Brasil junto à UE confessou que não tinha como somar as listas. Com a atitude, o governo jogou de volta para os europeus o problema.   Comenta-se que a pressão dos produtores irlandeses também pesou na decisão de embargo à carne brasileira. A Irlanda é quem mais sofre com a concorrência da carne brasileira. A comissária de Agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel, havia dito que a Europa precisa ser "justa", e a resposta de Bruxelas ao problema precisa ser "proporcional". Segundo ela, a limitação em 3% das fazendas brasileiras cumpria a questão da "proporcionalidade".   Preços   O resultado imediato do embargo à entrada de carne bovina brasileira na UE será a pressão sobre os preços internos da arroba de boi gordo, avaliam analistas. Isso porque as exportações para o bloco devem cair de forma significativa, sobrando mais carne no mercado interno, o que deve influenciar na formação do preço do produto. Apesar da paralisação do mercado de boi gordo para exportação, por enquanto os preços pagos pela arroba seguem praticamente estáveis entre R$ 75,50 e R$ 76 para descontar o Funrural, a prazo, no interior paulista.   Na prática, as compras de animais para abate estão paralisadas nesta semana, pois os frigoríficos já temiam que os importadores europeus suspendessem os embarques a partir de fevereiro. Para as contas do Brasil, a decisão dos europeus deve ter impacto sobre o saldo da balança comercial. De acordo com dados da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), as exportações de carne bovina do Brasil somaram US$ 4,5 bilhões em 2007 - um crescimento de 15% sobre o resultado de 2006. Só para a UE, as exportações chegam a US$ 1,5 bilhão.   Negociações no Brasil   Depois da decisão da União Européia, o secretário de Defesa, Inácio Kroetz, do Ministério da Agricultura, reuniu-se com representantes da cadeia produtiva da carne bovina, em Brasília. Ele considerou exagerada a informação divulgada de que haveria um embargo para a carne bovina brasileira. "Não tem embargo e achamos que o entendimento (sobre as informações da UE) está exagerado", disse. Segundo ele, o governo vai antecipar do dia 15 de março para o dia 15 de fevereiro a entrega dos relatórios individuais das auditorias feitas nas propriedades aptas a exportar para a UE. O diretor do Departamento de Economia, Carlos Cozender, do Itamaraty, também participa do encontro.   O superintendente-executivo, Luiz Becker Karst, da Secretaria de Agricultura de Goiás, fez duras críticas à posição dos europeus e também com relação ao governo brasileiro sobre a questão. "É uma desmoralização. Mostra que o Brasil não deixou de ser uma colônia de exploração dos europeus". "Essa questão é política, de soberania nacional, e não tem nada a ver com a qualidade da carne brasileira", disse. Ainda de acordo com ele, o clima no encontro é de indignação, já que o governo delegou aos Estados o trabalho de auditoria das propriedades rurais, que foram depois desqualificadas pela UE.   O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, afirmou que o governo divulgará às 16 horas uma nota sobre a decisão da União Européia. Ele não quis antecipar detalhes sobre o anúncio.   No dia 25 de fevereiro, a Europa enviará uma nova missão veterinária ao Brasil, para novas vistorias.

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