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União instável

Lava Jato põe em risco convivência entre alívio econômico e tensão política

Cida Damasco, Impresso

27 de fevereiro de 2017 | 05h00

Estava tudo pronto para o governo Temer deslanchar uma agenda econômica vigorosa nos próximos dias. A crise política, no entanto, não dá descanso e ameaça interferir não só na continuidade da discreta melhora na atividade econômica como nas mudanças estruturais prometidas para a travessia de 2017/2018. Leia-se na negociação das dívidas dos Estados à beira da falência e principalmente na discussão das reformas previdenciária e trabalhista, que estão no topo da lista de prioridades da administração Temer.

O Planalto prepara-se para voltar da trégua de carnaval sob forte pressão da Lava Jato. Tudo que se temia e se tentava adiar acabou ganhando corpo na semana passada com a grave denúncia envolvendo o poderoso chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o empresário José Yunes, amigo muito próximo do presidente, que confessou ter sido “mula” de dinheiro para o ministro na campanha eleitoral de 2014. Padilha providenciou um afastamento do governo e Temer procurou se desvencilhar de qualquer ligação com esse episódio, mas foi forçado a admitir, em nota oficial, que recebeu colaboração “formal” da Odebrecht. O episódio trouxe a Lava Jato para mais perto ainda de Temer, antes mesmo da liberação total das delações dos executivos da Odebrecht e de outras empreiteiras.

Será, sem dúvida, um teste decisivo para a sobrevivência da “união instável” observada nos últimos tempos entre a economia e a política. A economia com alguns sinais de alívio e a política em permanente tensão. No curto prazo, a equipe econômica terá de calibrar incentivos para tentar vitaminar o crescimento, na sequência da aceleração da queda de juros, da liberação das contas inativas do FGTS e da ampliação do financiamento de imóveis.

Aqui, o desafio é providenciar medidas eficientes e de apelo à população – especialmente para um governo fustigado por índices de popularidade em baixa – sem ceder às pressões da área política para que a equipe econômica se desvie do seu roteiro. Afinal, quanto maior é a demora para o aparecimento de resultados mais palpáveis – principalmente para a redução do desemprego – é compreensível que mais fortes se tornem essas pressões.

Na renegociação das dívidas dos Estados, o temor é que a Câmara faça corpo mole para aprovar o novo texto, que inclui a obrigatoriedade de apresentação de contrapartidas para os candidatos ao socorro da União. A equipe econômica tem usado a situação do Rio, com verbas bloqueadas e servidores com salários atrasados, para demonstrar a necessidade da mudança.

O próprio presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ensaiou um jogo de “vai-não-vai” em relação à urgência dessa votação e à definição das chamadas contrapartidas. Só na última semana, após reunião com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, mostrou-se mais “sensível” aos argumentos da equipe econômica, e concordou que o projeto deve ser votado na primeira quinzena do mês que vem, do jeito que está agora. Pelo visto esqueceu-se de suas declarações de dezembro, quando disse que o Congresso não tem de dizer “amém” à Fazenda. Falta, porém, convencer seus comandados.

Reformas. A tarefa mais comprometida pelo agravamento da crise política, contudo, é a negociação das reformas constitucionais. Justamente aquelas em que o Planalto aposta todas as suas fichas. Se forem ampliados os efeitos da Lava Jato na sua saúde, o governo Temer certamente enfrentará mais obstáculos – ou, em outras palavras, terá de ceder mais – para manter a base parlamentar coesa em torno de projetos tão polêmicos quanto as reformas da Previdência e trabalhista. É bom lembrar que, mesmo antes desse novo capítulo da novela da Lava Jato, as dissidências da base em relação às propostas para a Previdência já começavam a se manifestar.

Padilha é considerado um articulador hábil, capaz de conciliar os objetivos da equipe econômica com os interesses dos parlamentares, muitas vezes conflitantes, ainda mais em pleno período eleitoral. Sem Padilha, portanto, Temer tem um problema nas mãos. Com Padilha, porém, está com um problema e tanto. Afinal, com a Lava Jato rondando o Planalto, fica cada vez mais difícil manter a “união instável” da política com a economia.

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