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Boom Supersonic via The New York Times
Boom Supersonic via The New York Times

United Airlines quer ressuscitar voos comerciais em aviões supersônicos

A companhia aérea, que planeja comprar a Boom Supersonic, uma startup, poderia se tornar a primeira empresa a oferecer voos comerciais ultravelozes desde que os Concordes saíram de cena, em 2003

Lauren Hirsch, The New York Times

04 de junho de 2021 | 14h00

A era dos voos comerciais supersônicos chegou ao fim quando um Concorde completou sua última jornada entre Nova York e Londres, em 2003, mas o fascínio em relação às viagens aéreas ultravelozes nunca acabou.

O presidente Biden refletiu a respeito de voos supersônicos quando discutiu seu plano de infraestrutura, em abril. E na quinta-feira, a United Airlines afirmou que está encomendando 15 aviões capazes de viajar mais rápido do que a velocidade do som da Boom Supersonic, uma startup de Denver. A companhia aérea afirmou que tinha a opção de aumentar seu pedido para 35 aeronaves.

A Boom, que levantou US$ 270 milhões com firmas de investimento e outros investidores, afirmou que planeja apresentar seu avião em 2025 e iniciar testes de voo em 2026. A empresa espera que a aeronave, chamada Overture, comece a transportar passageiros antes do fim da década.

Mas os planos da startup já falharam pelo menos uma vez, e ela terá de superar muitos obstáculos, incluindo garantir a aprovação da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos e agências reguladoras de transporte aéreo de outros países. Mesmo fabricantes consagrados tropeçaram ao apresentar aviões novos ou remodelados. O 737 Max, da Boeing, teve o uso suspenso por quase dois anos após dois desastres.

Essa transação é a mais recente tentativa da United de se posicionar como uma empresa que se arrisca a sacudir uma indústria que começa a se levantar novamente após a devastadora pandemia. A companhia aérea anunciou um investimento de US$ 20 milhões em uma startup de táxis voadores movidos a eletricidade, a Archer, em fevereiro, e está trabalhando em “ritmo constante” em apostas desse tipo, afirmou Michael Leskinen, diretor de desenvolvimento corporativo da United.

“Estamos muito confiantes com o futuro”, afirmou Leskinen. “O setor aeroespacial leva muito tempo para inovar. Por isso, se você não começar a se empenhar nessas oportunidades imediatamente, acaba perdendo.”

United e Boom não revelaram detalhes financeiros, incluindo o preço de cada avião, mas Leskinen afirmou que os valores devem ser aproximadamente equivalentes aos de um novo Boeing 787, um avião de cabine larga que as companhias aéreas costumam usar em rotas internacionais. A United se comprometeu a comprar os aviões se a Boom for capaz de fabricá-los, garantir aprovação de agências reguladoras e atingir outros objetivos, como atender quesitos de sustentabilidade.

A Boom também planeja fabricar aviões para a Japan Airlines, que investe na startup.

O que não está claro é se a Boom resolveu os problemas que forçaram a British Airways e a Air France a pararem com os voos transatlânticos dos Concordes - custos elevados, preocupações de segurança e baixa demanda.

“Não era interessante para companhia aérea”, afirmou Henry Harteveldt, analista do setor de viagens e consultor, a respeito da razão de os voos supersônicos terem acabado. “E muito disso se devia ao fato de que nenhum motor disponível no mercado permitia que o jato supersônico fosse economicamente viável.”

Duas décadas depois, duas startups, Boom e Spike Aerospace, estão avançando com novos projetos e planos. 

A Boom, que trabalha com a Rolls-Royce, a fabricante britânica de turbinas de jatos, afirmou que seu avião será mais eficiente do que o Concorde; a United estima que será 75% mais eficiente. Os aviões da Boom não serão tão barulhentos como os Concordes, porque suas turbinas criarão o estrondo sônico somente quando as aeronaves voarem sobre o oceano, “onde não tem ninguém para escutar”, afirmou o diretor executivo da Boom, Blake Scholl, que trabalhou anteriormente na Amazon e no Groupon.

Em anos recentes, muita gente também tem ficado cada vez mais preocupada a respeito da contribuição das viagens aéreas para ao agravamento das mudanças climáticas. Especialistas estimam que jatos supersônicos precisam de mais combustível por quilômetro voado para transportar passageiros do que os aviões comerciais comuns.

Scholl afirmou que os motores dos aviões Boom serão movidos inteiramente a combustível sustentável de aviação, que pode ser produzido a partir de lixo, plantas e outros tipos de matéria orgânica. Especialistas dizem que esse combustível poderia reduzir emissões, mas seu fornecimento é limitado, ele é caro e seu uso não elimina emissões de gases de efeito estufa.

A United afirmou que é cedo demais para estimar quanto será cobrado por esses voos, que seriam operados a partir de seus polos em Newark e São Francisco, para começar. Mas uma outra grande interrogação a respeito do novo avião é quantas pessoas estarão dispostas a gastar os milhares de dólares que cada passagem para um voo supersônico deverá custar.

A United tem dado atenção há muito tempo aos viajantes a negócios, incluindo ao adicionar voos a Israel, China e outros destinos populares entre executivos e oferecendo mais assentos de classe executiva em seus aviões. Leskinen qualifica a ideia dos voos supersônicos como uma “ferramenta muito poderosa para os negócios”.

“Você pode participar de uma reunião de negócios e mesmo assim conseguir chegar em casa a tempo de jantar com a família”, afirmou ele.

Mas a expectativa é que viagens a negócios e voos internacionais devam se recuperar lentamente da pandemia, e alguns especialistas afirmam que o setor poderia demorar anos para se recuperar totalmente, porque as empresas perceberam que podem se manter eficientes sem tantas reuniões presenciais.

“A chave para o sucesso do transporte supersônico está no negligenciado e subvalorizado gerente de viagens corporativas, que provavelmente está relegado a um dos piores escritórios de sua empresa - e cuja tarefa principal é minimizar gastos corporativos com viagens de negócios”, afirmou Harteveldt.

Se os voos economizarem um terço do tempo de viagem, mas ficarem um terço mais caros, os gerentes de viagens podem acabar dizendo “não sei se podemos justificar isso”, afirmou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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