Universidades públicas e o desenvolvimento do Estado

O impacto gerado por USP, Unicamp e Unesp evidenciam que o investimento nessas instituições produz resultados

Hernan Chaimovich*, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 04h00

O papel da Unesp, da Unicamp e da USP no perfil socioeconômico das cidades do Estado de São Paulo, onde elas têm sede, é raramente levado em consideração. As três universidades públicas estaduais paulistas são financiadas pelo contribuinte do Estado e, como esperado, as prestações anuais de contas financeiras das três instituições são aprovadas regularmente por todos os órgãos de controle do Estado.

As três universidades vêm demonstrando que sua produtividade aumenta continuamente desde a decretação da sua autonomia com vinculação do orçamento ao ICMS, em 1989, por fatores que superam, em muito, a variação do financiamento e a produtividade do trabalho no País. Nestes 30 anos os títulos concedidos na graduação mais que dobraram, os diplomas de pós-graduação aumentaram quase 400% e as publicações científicas se multiplicaram quase 20 vezes. O impacto intelectual, econômico e social da produção acadêmica, a qualidade dos profissionais, mestres e doutores formados pelas três universidades e a plêiade de serviços prestados, que vão da atenção médica até a produção artística, evidenciam qualitativa e quantitativamente que o investimento produz resultados. Estes dados, porém, refletem só uma parte do impacto cultural, social e econômico das três universidades públicas do Estado.

Por exemplo, não se concebe a região da grande Campinas, por muitos considerada o Vale do Silício tupiniquim, sem a pesquisa e os profissionais formados pela Unicamp. O ecossistema de alta tecnologia que nasceu na região não teria se desenvolvido sem o ambiente determinado pela presença do câmpus da universidade. São Carlos é outro exemplo: é impossível imaginar a pujança agrícola e industrial da comarca sem os campi da Universidade de São Paulo. O sucesso do investimento privado em pesquisa agropecuária, evidente em São Paulo, seria impossível sem a investigação e os cientistas da Escola Superior de Agricultura da USP. O peso da Unesp na economia, e sua contribuição para o (alto) perfil socioeconômico do Estado, é também explícito em Bauru, Jaboticabal e Araraquara. Os exemplos se multiplicam em Ribeirão Preto, Lorena e por aí afora.

Restam, ainda, aspectos do impacto da existência de sedes das universidades paulistas no Estado que, em alguns casos, seriam fáceis de quantificar e, se necessário, monetizar. O peso dos estudantes destas três universidades na economia de cidades como Pirassununga, Assis, Marília, Limeira ou Lorena se faz sentir desde a padaria até o bar, da lavanderia ao mercadinho da esquina. Os estudantes afetam e modificam economias locais, e padeiros e barbeiros sabem que sua sobrevivência como pequenos empreendedores depende da existência dessa população flutuante.

A vida no interior paulista foi modificada pela necessidade de abrigar uma população de professores, funcionários e estudantes com formação cultural diferenciada. Mistura harmônica de culturas sempre enriquece sociedades que, como nestes casos, não só a aceitam, mas a acolhem e se transformam com ela. Tudo isso contribuiu para transformar o padrão, a qualidade e a quantidade do emprego no interior paulista e, não por acaso, foi induzido pela existência de instituições de ensino superior e pesquisa, cujo impacto é reconhecido e destacado em todos os rankings internacionais. O desempenho internacional das universidades públicas do Estado é tributário de outra instituição paulista, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que, por décadas de investimento constante em pesquisa científica, propicia a criação, internacionalmente competitiva, de conhecimento em todas as áreas do saber, em benefício do cidadão.

O reconhecimento da eficiência e da pertinência do sistema de ensino superior e pesquisa, financiado pelo contribuinte no Estado de São Paulo, não pode ser feito de forma solitária pelos que nele trabalham ou estudam. Em todos os espaços onde o impacto desse sistema condiciona a própria existência do lugar, seja uma cidade do interior ou um hospital de alta complexidade na capital, necessitamos de uma atitude altiva. Que todos se levantem, mostrem e demonstrem os caminhos apontados, as contribuições ofertadas, os benefícios propiciados e os avanços conquistados, pois só este sistema vai nos permitir enfrentar o futuro da complexidade presente.

*PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE QUÍMICA DA USP, FOI PRESIDENTE DO CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO (CNPQ)

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