Urgência e ritmo de aumento de juros

No cenário que sugere uma expressiva retomada do consumo e do investimento,[br]é importante manter a flexibilidade para fazer o ajuste necessário nas próximas reuniões

Luiz Fernando Figueiredo, Cassiana Fernandez, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

Há pouco mais de um mês havia relativo consenso entre economistas e analistas do mercado financeiro de que o ritmo de crescimento da demanda doméstica no Brasil era significativamente maior que a capacidade de expansão da oferta deste mercado e, portanto, insustentável. O Brasil, como China, Índia e Austrália, está entre os países que apresentaram elevadas taxas de crescimento após a recessão à qual suas economias foram jogadas após a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, e como tais países já haviam iniciado um ciclo de aperto monetário para tentar conter as maiores pressões inflacionárias.

Desde então, muita coisa parece ter mudado no cenário econômico. Foram divulgados dados que mostram que a economia norte-americana perde ímpeto após o fim de estímulos fiscais e o que parecia ser uma retomada mais consistente do consumo das famílias. A China parece de fato estar disposta a reduzir seu nível de crescimento a fim de evitar a formação de uma bolha imobiliária, o que traria consequências políticas importantes em seu cenário interno. De forma geral, houve significativa revisão para baixo das expectativas de crescimento ao redor do globo. Com a desaceleração das economias emergentes após as altas taxas de crescimento apresentadas na saída da recessão, e com as economias do G-3 ainda anêmicas, voltou à tona o medo de uma repetição da década de 30. Em suma, o tema central das últimas semanas foi o aumento do risco de double dip, ou seja, de um novo mergulho da atividade mundial.

No caso específico do Brasil, a desaceleração da atividade na margem foi exarcebada pelos impactos do fim do benefício de IPI para veículos e eletrodomésticos (que gerou antecipação de consumo para o primeiro trimestre) além dos efeitos secundários desse mundo que cresce menos. Acrescenta-se a isso, a Copa do Mundo. Apesar da eliminação precoce da seleção brasileira, ainda nas quartas de finais, nos dias de jogos do Brasil não houve expediente na maior parte do país: escritórios não abriram, indústrias não produziram e o varejo não vendeu, com exceção aos bares e restaurantes. Por último, aos dados mais fracos de atividade na margem somou-se a maior deflação de alimentos no IPCA dos últimos 5 anos.

No limite, pode-se dizer que houve uma confluência de fatores que justificaram uma redução do senso de urgência no ritmo de aperto monetário. Cabe ressaltar que tal visão foi fortalecida e/ou incentivada pela própria comunicação do Banco Central ao mercado a partir do último Relatório de Inflação e algumas entrevistas pontuais de membros do Copom nas últimas semanas.

Reconhecemos que o cenário permanece incerto. Entretanto, não acreditamos que os dados recentes indiquem mudança significativa do cenário econômico local. De fato, os principais determinantes prospectivos da atividade (crédito, confiança, renda e emprego) ainda sugerem uma expressiva retomada do consumo e do investimento ao longo do segundo semestre. Nesse cenário, é importante manter a flexibilidade para continuar a fazer o ajuste necessário ao longo das próximas reuniões.

Dessa forma, apesar dos dados recentes corroborarem a postura mais cautelosa, o BC poderia aproveitar o momento para reafirmar seu compromisso com a convergência da inflação à meta ainda em 2011. Na nossa visão, uma sinalização mais conservadora do Copom favoreceria a redução das expectativas para o ano que vem, que hoje se encontram consideravelmente acima da meta de 4,5% a.a.. Tal movimento permitiria que o custo da desinflação sobre o ritmo de crescimento da economia fosse menor. E ainda, a ação firme do BC agora parece fundamental para conter as expectativas às vésperas do início das negociações de dissídios das principais categorias de assalariados, risco importante de aceleração da inflação no segundo semestre.

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