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Ursae majoris

As perspectivas para o crescimento do PIB global para 2019 ainda são razoáveis

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2018 | 03h00

Durante a primeira metade de 2018, os mercados financeiros globais tiveram um bom desempenho, gerando bons retornos com baixa volatilidade. O crescimento econômico mundial acelerava na margem, mas o aperto da política monetária nos Estados Unidos e preços dos ativos financeiros caros para padrões históricos já sugeriam a necessidade de encontrar ativos mais defensivos e líquidos, principalmente porque a taxa livre de risco (títulos do Tesouro Americano de três meses) caminhava para 2,4% ao ano. 

Neste período, os mercados emergentes destoaram dos mercados desenvolvidos, acumulando perdas expressivas tanto em ações (índice MSCI) como em moedas. As crises na Argentina, Turquia e as incertezas eleitorais no Brasil afugentaram o investidor estrangeiro. O péssimo desempenho dos emergentes gerou um ponto de entrada atrativo (barato) para esta classe de ativos. No entanto, acho que ainda estamos longe do ponto de entrada para os mercados emergentes, já que as condições externas estão ficando mais inóspitas para eles. 

Desde outubro, o mercado financeiro global azedou, e os investidores perderam grande parte dos ganhos realizados até então. Depois de subir 24% até o início de outubro, o preço do petróleo (WTI) caiu 33%, derrubando consigo os mercados de ações e dobrando a volatilidade (índice VIX) para 20%. O panorama para os retornos acumulados no ano em dólares é desolador, esgotando em segundos a tinta vermelha das impressoras. O índice Bovespa não é exceção, entregando um retorno de 0,9% em dólares (17,4% em reais), o que é pouco quando ajustado por volatilidade, dada as emoções cardíacas oferecidas por este mercado em 2018. 

O decepcionante desempenho dos mercados financeiros em 2018 não garante que os resultados serão iguais em 2019. Em outubro, alertei aos nossos leitores que ainda que não estivéssemos entrando no ‘bear market’, as perspectivas para o mercado financeiro global para o resto do ano e 2019 seriam difíceis, sendo caracterizada por menores retornos e maior risco. Com o benefício de ter mais dois meses de dados, acho que ainda não entramos no ‘bear market’, mas estamos mais perto de receber um abraço do urso.

As perspectivas para o crescimento da economia global para 2019 ainda são razoáveis, mas o crescimento do PIB mundial ficará mais próximo de 3% do que dos 3,7% previstos pelo FMI em outubro. E é por causa deste arrefecimento da economia mundial (e sobreoferta de petróleo) que, desde outubro, o preço do barril de petróleo caiu tanto. O mercado também está mais preocupado com a intensificação da guerra comercial e o com aperto das condições financeiras mundiais (já que o Fed aumentará a Federal Funds Rate de 2,25% hoje para 3,50% até o final de 2019). 

Em novembro, os bancos divulgaram os seus relatórios com as suas previsões econômicas e financeiras para 2019. O tom da maioria dos relatórios é construtivo, porém cauteloso. Fica evidente nas entrelinhas o desconforto com o viés negativo dos riscos e com a deterioração das condições técnicas dos mercados. O investidor ficou mais defensivo e, desde outubro, houve um aumento importante dos resgates sofridos por fundos hedge, fundos mútuos e fundos ETFs (exchange traded funds). 

Eu estou mais pessimista que os bancos, tanto para a Bolsa como para a renda fixa americana. Em 2019, o retorno esperado para o S&P 500 será próximo a 5%, o que é pouco comparado com uma taxa de Fed Funds de 3,5%. Como em 2019 a volatilidade deverá ser o dobro da média de 2018, o índice de Sharpe (excesso de retorno do mercado ajustado por volatilidade) do S&P 500 será baixíssimo. Isto significa que teremos pouco prêmio para muito risco, comparado com um índice de Sharpe de 3 em 2017 (o quarto maior da história). O mercado de high yield americano é vulnerável porque o seu prêmio de risco é baixo, a qualidade de crédito dos novos emissores piorou, e seus preços caem muito quando as taxas de juros de longo prazo sobem. 

É possível atenuarmos os efeitos da chegada do ‘bear market’ no Brasil. As primeiras escolhas feitas por Paulo Guedes tanto em termos de equipe econômica como da agenda econômica liberal a ser adotada pelo próximo governo são um bom passo nesta direção. O resto vai depender da capacidade de liderança, negociação e execução do presidente eleito. 

* PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI

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