Uruguai quer acordos fora do Mercosul para países pequenos

Presidente uruguaio defende permissão, dizendo que esta ajudaria a superar 'assimetrias' do bloco

Ariel Palácios, de O Estado de S. Paulo,

18 de dezembro de 2007 | 12h46

O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, anfitrião da 34ª Cúpula de Presidentes do Mercosul pediu nesta terça-feira, 18, que o bloco permita que "os países de economias menores possam ter acordos com países de fora da região, de forma a poder superar as assimetrias". Por trás desta declaração, está o interesse do Uruguai em ter a permissão do Mercosul para negociar um Tratado de Livre Comércio com os EUA. O presidente Vázquez admitiu que "existem dificuldades" para avançar com a integração no Mercosul. Oncologista, fez uma alusão médica: "os diagnósticos ajudam a curar...mas sozinhos os diagnósticos não curam. É preciso ações concretas. Para que o processo regional caminhe é necessário um bom relacionamento entre todos." Vázquez também ressaltou a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e Israel. "Isso mostra a vontade que o bloco tem de abertura com outros países e blocos", disse. Mas, o presidente uruguaio também ressaltou que no semestre que se encerra ficaram vários assuntos sem resolver, entre eles, as assimetrias comerciais. "Também temos que assumir onde estamos na integração e ser conscientes sobre até onde podemos chegar. Queremos constituir uma zona aduaneira, mas construímos até agora uma zona de livre comércio com uma Tarifa Externa Comum (TEC) muito perfurada". O presidente do Paraguai Nicanor Duarte Frutos, em fim de mandato, mostrou-se otimista e sustentou que o Mercosul está "muito mais atlético" e "menos paquidérmico". A presidente argentina Cristina Kirchner que está no meio de um grave conflito com o presidente Vázquez por causa da "Guerra da Celulose", tentou colocar panos quentes e celebrou que "a querida República do Uruguai reafirmou sua permanência no Mercosul". Segundo Cristina, "ninguém pode ser próspero se as sociedades ao redor vivem mal".  A presidente argentina, que costuma culpar a imprensa das mazelas políticas e econômicas, desabafou: "estamos um pouco cansados de ler em letras garrafais que o Mercosul estava morrendo". A presidência temporária do Mercosul passou às mãos de Cristina. Venezuela Cristina também ressaltou que existem países na vizinhança do Mercosul que "não encaram como positivo que os vizinhos se unam. E aí tentamos nos separar". A frase foi interpretada como alusão direta aos EUA já que o governo Cristina acusou a administração Bush de estar por trás das denúncias realizadas pelo FBI e a Justiça Federal de Miami que ela recebeu dinheiro do presidente venezuelano Hugo Chávez para sua campanha eleitoral. "Por isso, espero que nesta presidência temporária possamos incorporar a Venezuela. A presença venezuelana no Mercosul permitirá configurar o fechamento da equação energética", disse.  O presidente Chávez recordou que há nove anos que a Venezuela solicitou sua entrada no Mercosul. "Fazia muito frio naquela época...estávamos na meio da noite neoliberal. Tivemos paciência, apesar dos 'atentados' nas consciências. A Venezuela, no século XX foi transformada em uma colônia dos EUA. Continuaremos esperando com paciência. Esperemos que no próximo ano estejamos dentro...e assim, assumir a presidência temporária do Mercosul", disse. O líder bolivariano criticou a influência americana na região, especialmente em seu próprio país no século XX: "ele nos impuseram o 'american way of life' (que pronunciou como 'américan güéi of láif')...bem, perdoem meu inglês, que é muito ruim". Chávez, famoso por sua verborragia, reclamou quando Vázquez indicou que seu discurso estava longo demais e estava atrasando toda a agenda. "Não há tempo no Mercosul, essa é uma coisa que sempre reclamo...Fiz uma viagem de seis horas para cá, e seis de volta...e o tempo para falar aqui é curto", lamentou o bolivariano. O presidente da Bolívia, Evo Morales e a presidente da Chile, Michelle Bachelet, cujos países são "associados" ao Mercosul, realizaram breves discursos. Semestrais Nas discussões Brasil-Argentina houve avanços nas estratégias para aprofundar a integração bilateral. Porta-vozes da Chancelaria argentina informaram que os chanceleres dos dois países durante uma reunião nesta terça de manhã confirmaram que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner realizarão duas reuniões anuais - uma por semestre - para avançar em diversos pontos da agenda bilateral. Os chanceleres também combinaram que daqui a 30 dias seus respectivos vice-chanceleres se reunirão para definir as comissões bilaterais que servirão para promover avanços em vários pontos das relações entre os dois países. No total, serão quatro comissões: Educação e tecnologia; Segurança, produção para a Defesa; Energia, Transporte e infra-estrutura; e Saúde, Educação e desenvolvimento.

Tudo o que sabemos sobre:
Mercosul

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.