Uruguai teme retaliações de Kirchner por guerra da celulose

O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, indicou que teme que o presidente argentino, Néstor Kirchner, aplique represálias contra seu país. O motivo: a determinação uruguaia de construir as mudas fábricas de celulose na cidade de Fray Bentos, na fronteira entre os dois países, mesmo sob a resistência de Buenos Aires. Em entrevista à revista uruguaia Caras e Caretas, Vázquez fez a si próprio a seguinte pergunta, referindo-se à dependência energética do Uruguai com a Argentina (da qual importa gás e energia elétrica) e a eventuais pedidos de Kirchner a organismos financeiros internacionais para que suspendam créditos ao governo em Montevidéu: "o que acontece se nos cortarem o gás ou a energia elétrica, se dragarem nossos canais ou nos bloquearem possíveis empréstimos internacionais?". Vázquez respondeu a si mesmo: "tudo isto deve ser estudado, e devemos estar sempre um passo na frente".Os dois países mantêm um duro confronto há um ano. Na ocasião, de olho nas eleições parlamentares de outubro passado, o presidente Kirchner começou a apoiar enfaticamente os habitantes argentinos da região da fronteira com o Uruguai, que alegavam que as duas fábricas - supostamente com alta capacidade de poluição - causariam um apocalipse ambiental que levaria ao colapso econômico da área, especialmente do lado argentino da fronteira. Do lado uruguaio da fronteira, o apoio às fábricas uniu todos os grandes partidos políticos, sindicatos, a mídia e a opinião pública, indignados com as pressões do vizinho "grande", isto é, a Argentina.Após as eleições Kirchner envolveu-se pessoalmente no confronto, abrindo a pior contenda diplomática entre os dois países desde 1955.Suspensão das obras Entre dezembro e março, manifestantes da cidade argentina de Gualeguaychú exigiram a suspensão das obras. Eles realizaram piquetes em duas das três pontes que ligam os dois países, levando a economia uruguaia à asfixia.O governo Vázquez afirma que os piquetes causaram ao país perdas de US$ 400 milhões. Na semana passada, os manifestantes emitiram sinais de que no próximo verão voltarão à carga, ao convocar um boicote nacional para que nenhum turista argentino ponha os pés em território uruguaio.Na entrevista à Caras e Caretas Vázquez disse: "é possível um cenário de confronto bélico, em termos clássicos, entre o Uruguai e a Argentina?...Não, não é um cenário possível". No entanto, o presidente uruguaio admitiu que embora tenha esperanças de resolver o conflito, "parece que o caminho não é simples, e talvez leve mais tempo do que imaginava".Decepção Um dos efeitos colaterais da Guerra da Celulose entre o Uruguai e a Argentina foi o surgimento de um sentimento de decepção com o Mercosul entre políticos e empresários uruguaios.Vázquez disse que espera que o México entre em breve no Mercosul, já que desta forma a balança de poder interno do bloco poderia ser modificada. O presidente uruguaio criticou os dois sócios "grandes": "gostaria da entrada do México, pois assim surgiriam equilíbrios que hoje não existem. A Argentina e o Brasil fazem acordos entre eles e deixam o Uruguai e o Paraguai para depois".Vázquez sustentou que "trabalhará intensamente para conseguir em outras partes do mundo aquilo que não consegue na região", em alusão a eventuais acordos comerciais com os EUA e outros países. Coincidentemente, nesta semana, o Ministro da Economia do Uruguai, Danilo Astori, iniciará uma rodada de negociações bilaterais com representantes do governo americano com o objetivo de definir as bases de um "amplo acordo comercial". Mas, esta intenção de chegar a um acordo de livre comércio com os Estados Unidos entra em confronto com as regras do Mercosul. Há pouco mais de um mês, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, ressaltou que não se pode estar dentro do Mercosul e negociar de forma bilateral acordos de livre comércio com outros países.

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