Uruguai vive dilema no Mercosul

O governo uruguaio lida com um forte dilema interno que opõe a vertente da integração à realidade de um Mercosul que não satisfaz integralmente suas aspirações. A Argentina, que considera seus problemas com Chile e Uruguai meras questões bilaterais, por sua vez, receberá a cúpula do Mercosul na próxima semana. O encontro tem como objetivo aperfeiçoar o bloco e superar as diferenças econômicas entre seus membros."O Uruguai não pode ficar fora do Mercosul, porque é seu contexto natural, mas com as limitações impostas atualmente, o Uruguai será obrigado a buscar uma inserção externa", disse à EFE um funcionário de alto escalão do governo, que pediu para não ser identificado.O Uruguai, menor país entre os quatro membros do bloco, considera que os 15 anos transcorridos desde sua fundação não serviram para equilibrar as enormes diferenças existentes entre os países membros, e o sentimento de frustração foi apenas crescendo.O país, então acusou, reiteradas vezes, os dois sócios maiores do bloco, Argentina e Brasil, de fazerem uma política bilateral sem levar em conta seus interesses ou mesmo os do Paraguai. Trabalhou, inclusive, com a hipótese de pedir para deixar o Mercosul para poder negociar vantagens com outros países.Frustração O sentimento de frustração foi aguçado este ano quando o Uruguai viu como o fato de ser membro do Mercosul não serviu para dirimir o conflito com a Argentina pela rejeição de Buenos Aires à instalação de duas fábricas de celulose em território uruguaio.Cidadãos argentinos participaram de manifestações com suspensão do tráfego em duas das três pontes que unem as margens do rio Uruguai, fronteira natural entre ambos os países, por 80 dias.O Uruguai pediu a convocação extraordinária do Conselho do Mercado Comum. A solicitação não apenas foi ignorada pela Presidência do bloco, exercida de forma temporária pela Argentina, como também pelos outros dois membros. O País decidiu então denunciar o vizinho ao Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul por suposta violação do Tratado de Assunção, que prevê a livre circulação de bens e pessoas na região. "Mas o que vimos é uma vontade argentina de atrasar o desenvolvimento do processo", lamentou a mesma fonte.Denúncia A Argentina denunciou o Uruguai à Corte Internacional de Justiça (CIJ) de Haia, na Holanda, por violação do Tratado do Rio Uruguai, que estabelece custódia compartilhada do recurso natural, por ter supostamente autorizado a construção das fábricas de forma unilateral.Embora a medida já tivesse sido prevista, o governo uruguaio se surpreendeu com a decisão do país vizinho, e, na última quinta-feira, quando a Corte negou o pedido argentino para que as obras fossem interrompidas, o vice-presidente Rodolfo Novoa lamentou que o caso tivesse chegado a essas instâncias."Precisamos encontrar uma solução que nos afaste dos tribunais internacionais, que nos custam muito tempo e dinheiro. No final, a decisão judicial deles é anunciada sob a forma de conselho para que os países promovam acordos entre si", disse.Mas os uruguaios vêem uma "luz no fim do túnel" em curto prazo com a Presidência brasileira do bloco, que começará a ser exercida após a cúpula de Córdoba (Argentina), nos dias 20 e 21 deste mês. O Uruguai espera que o Brasil cumpra com as promessas feitas por seu chanceler, Celso Amorim, durante recente visita a Montevidéu."É preciso buscar idéias para que um novo acordo seja firmado, um ´New Deal´ no Mercosul que beneficie as economias menores", declarou o ministro das Relações Exteriores brasileiro na capital uruguaia. Presidência Resta então a próxima cúpula do bloco, que será realizada entre quinta e sexta-feira na cidade argentina de Córdoba, onde a presidência do Mercosul será passada ao Brasil. O País compartilha a preocupação em atender as reivindicações do Paraguai e do Uruguai, as menores economias do bloco, disseram à EFE fontes diplomáticas argentinas.Nestes seis meses de Presidência, a Argentina concentrou esforços em fechar o pacto para a incorporação da Venezuela como quinto membro pleno do Mercosul e fazer um acordo sobre o prazo definitivo para a entrada em vigor do Código Alfandegário Comum, assunto pendente há uma década, acrescentaram as fontes.Na próxima cúpula presidencial, também serão selados compromissos para iniciar a redação do Código Alfandegário Comum, para que entre em vigor a partir de 2008, e avanços na abertura do comércio de serviços dentro do bloco.

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