Fabio Motta/Estadão - 20/8/2014
Fabio Motta/Estadão - 20/8/2014

Com uso recorde, térmicas geram energia para um terço das casas do Brasil

Energia extraída da queima de gás, óleo diesel, biomassa e carvão é mais poluente e mais cara para o consumidor; 'medida excepcional' permitiu o aumento da produção durante a crise hídrica

André Borges , O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 15h00

BRASÍLIA - A necessidade de reter água nos reservatórios das hidrelétricas tem produzido um volume recorde no consumo diário de energia gerada a partir das fontes térmicas. Na segunda-feira, 19, de cada 100 lâmpadas acesas no Brasil, 32 se alimentaram de energia extraída a partir da queima de gás, óleo diesel, biomassa e carvão, além da fonte nuclear.

Trata-se de um volume recorde. Os registros oficiais mostram que, na última década, ocorreram apenas três ocasiões em que as térmicas responderam, sozinhas, por um terço da produção diária de energia. Os dados apurados pela reportagem no Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que esse cenário se deu em apenas alguns dias nos anos de 2014, 2015 e de 2017, atingindo, no máximo, 32%. 

Para se ter uma ideia do que isso significa, em cenários normais de geração, as térmicas costumam responder por cerca de 20% a 25% da produção diária de energia, enquanto a produção hidrelétrica atende, em média, mais de 65% do consumo diário. Nestes tempos, porém, em que o Brasil atravessa a pior seca dos últimos 91 anos, a geração a partir do movimento das águas tem ficado na casa dos 50%.

 


O cenário mostra que a pressão sobre a geração térmica só não está maior porque, na última década, o País passou a construir seus parques eólicos. A produção de energia a partir do vento, que até cinco anos atrás tinha papel coadjuvante na matriz elétrica nacional, hoje tem respondido por até 16% do fornecimento diário de cada watt gerado para manter o País ligado.

Questionado sobre o assunto, o ONS afirmou que o acionamento máximo das usinas térmicas - que são mais caras para o consumidor, além de mais poluentes - são uma “medida excepcional” e que faz parte das ações aprovadas pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) “para atravessarmos a atual crise hídrica”.

Na tentativa de armazenar o máximo possível de água nos reservatórios para atravessar o período seco, que só acaba no fim de novembro, o acionamento das térmicas está próximo do limite, o que levou o ONS a sair em busca de usinas paradas por problemas técnicos, por falta de combustível ou manutenção, para que entrem em atividade o quanto antes. 

Hoje o Brasil tem um total de 22 mil megawatts (MW) de capacidade de geração térmica para utilizar. No dia a dia, porém, tem contado com cerca de 16 mil MW desse total, porque cerca de 6 mil MW estão indisponíveis, devido a uma série de restrições. 

“O Operador monitora permanentemente a disponibilidade dos recursos energéticos do Sistema Interligado Nacional. Em particular, com relação às termelétricas, o ONS vem atuando junto às empresas geradoras para que os planos de manutenção sejam adequados de modo que se assegure a máxima disponibilidade de recursos no período que antecede a configuração do período úmido 2021/2022”, declarou o ONS. 

Inflação

O consumidor de energia já sente, há meses, o impacto das térmicas em sua conta de luz. Em junho, a energia elétrica foi o item que mais pressionou a inflação. Com a gasolina, foi o item que respondeu por 25% da inflação de 0,53% no período. 

Com o agravamento da crise, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reajustou em 52% a bandeira tarifária, taxa embutida nas contas de luz. A bandeira vermelha patamar 2, que é a mais cara, passou de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. 

Esse uso intensivo das usinas termoelétricas deve custar um total R$ 13,1 bilhões até novembro deste ano aos consumidores, uma estimativa 45% superior ao valor previsto em junho pelo Ministério de Minas e Energia. O montante deve levar a um aumento adicional superior a 5% no custo da energia, a ser repassado para as tarifas no próximo ano

Modelo defasado

A decisão sobre qual usina entregará energia e qual será a quantidade dessa geração lançada sobre as distribuidoras é feita diariamente pelo ONS, que tenta equilibrar a produção entre as diversas fontes disponíveis, por meio de sistemas e modelos matemáticos. Na avaliação do pesquisador sênior do grupo de estudos do setor elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel/UFRJ), Roberto Brandão, essas métricas precisam ser reavaliadas. 

“Os modelos computacionais que o ONS usa são muito otimistas e isso acaba impactando no planejamento. Não é por acaso que o órgão costuma ser mais conservador em relação a seu modelo e aciona mais térmicas que o indicado”, diz Brandão. “No ano passado, o cenário mostrava que o País estaria em uma situação mais confortável com as hidrelétricas. Mesmo assim, o Operador despachava térmicas acima do previsto. Por isso, está na hora de rever esse modelo.”

O assunto, segundo o especialista, já é alvo de uma consulta pública, para que passe a considerar mais variáveis e tenha um resultado mais preciso. “Um pouco da gravidade da situação está associado a isso. A severidade poderia ser menor. É necessário que tenhamos parâmetros de aversão a risco dos sistemas computacionais”, comenta Brandão.

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