USP cria centro de tecnologias interativas

Laboratório desenvolverá projetos com empresas públicas e privadas

RENATO CRUZ, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2011 | 03h08

Por enquanto, o centro ainda é conhecido como prédio verde, ao lado do departamento de engenharia elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Mas a tinta verde só foi usada para proteger a construção. O prédio de três andares será pintado de branco e prateado e, quando o sistema elétrico terminar de ser ligado, ficará todo iluminado, contrastando com a escuridão dos edifícios ao redor.

Oficialmente, o Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas (Citi) deve ser inaugurado somente em março de 2012. "Estamos voando em um avião em construção", afirmou o professor Marcelo Zuffo, coordenador do centro, que espera se mudar para o prédio novo até o fim do ano. O centro é interdisciplinar, unindo pesquisadores da Escola Politécnica, da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto.

Com investimento inicial de R$ 6 milhões, a ideia é criar um centro de classe mundial, como o Media Lab, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. "Vamos desenvolver as tecnologias e também pensar o impacto delas na sociedade", explicou Zuffo.

O térreo do centro tem uma linha de prototipagem, capaz de produzir os equipamentos eletrônicos projetados pelos pesquisadores. Cada um dos dois andares superiores serão capazes de abrigar 60 pessoas, que vão compartilhar 500 computadores. "A densidade de computadores será alta", explicou Zuffo.

O centro também funcionará como think tank, para analisar o impacto da tecnologia na sociedade. "O conceito de think tank, aqui no Brasil, ainda é mais comum em outras áreas, como a política", apontou o coordenador do Citi. Não serão oferecidos cursos de graduação, mestrado ou doutorado. Os pesquisadores do centro vão desenvolver projetos de pós-doutorado.

Projetos. As áreas de pesquisa do centro são meios eletrônicos interativos e interação humano-computador. Uma das áreas de pesquisa é a TV de ultra alta definição. Os televisores de alta definição, que estão no mercado, têm 2 megapixels de resolução.

Segundo Zuffo, para chegar a uma resolução equivalente à da percepção humana, seria necessária uma resolução de 1 gigapixel. "Para gerar essa imagem com as técnicas atuais, a grande limitação seria o consumo de energia", explicou o professor. Um televisor de ultra alta resolução, com a tecnologia atual, consumiria a energia equivalente a um quarto da energia consumida por todo o câmpus. "Também vamos pesquisar a suprapercepção, imagens com uma resolução maior do que a capacidade de percepção humana", disse o professor.

Um grupo de pesquisadores do centro está desenvolvendo os chamados "drones", robôs voadores. Dotadas de câmeras, essas máquinas podem fazer o reconhecimento de grandes áreas, ou sobrevoar locais de difícil acesso a seres humanos.

"A criação de centros horizontais (que reúnem várias áreas do conhecimento) ainda não é comum no Brasil", afirmou Zuffo. "Os pesquisadores ainda ficam muito isolados em suas unidades." Um dos objetivos dos centros de instrumentação da USP, dos quais o Citi é um exemplo, é acabar com esse isolamento.

Empresas. Os recursos investidos pela universidade no centro são só o início. Seus equivalentes internacionais, como o Media Lab, conseguem multiplicar algumas vezes os recursos recebidos da universidade com projetos externos, de órgãos públicos e de empresas privadas.

Em parceria com empresas, a equipe do professor Zuffo já desenvolveu, entre outros projetos, conversores de TV digital e jogos educativos para TV interativa. Usando um Arduino, placa controladora de hardware aberto (que não tem royalties), criaram uma impressora tridimensional. Com recursos da Secretaria dos Direitos das Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo, eles desenvolveram toda a eletrônica necessária para cadeiras de roda motorizadas. Atualmente, esses equipamentos são importados. "Nas cadeiras fabricadas no Brasil, a carcaça é nacional e os motores e baterias são importados", afirmou o pesquisador Marcelo Arcanjo.

Eles desenvolveram o módulo de controle e controles em diversos formatos: joystick, botões pequenos ou grandes, toque e até uma interface de sopro. A proposta é transformar essa tecnologia em hardware e software abertos, para que fabricantes brasileiros de eletrônicos possam produzi-los. "Com escala, os custos seriam menores que dos importados", disse Arcanjo.

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