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ESG

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Vá lá, boas notícias

Nova safra recorde de grãos é inegável boa notícia para o País, ao contrário da inflação para março e do acordo da Opep+

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 19h45

Esta quinta-feira trouxe para a economia uma boa notícia e outras duas boas, mas nem tanto.

A boa notícia é a confirmação de nova safra recorde de grãos ao longo deste ano. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta a produção de 251,8 milhões de toneladas, aumento de 4,0% sobre a safra anterior, e o IBGE, outra instituição que se dedica a levantamentos desse tipo, calcula uma produção de 245,2 milhões de toneladas, aumento de 1,5%.

Nessa temporada de queda vertical da produção dos serviços e da indústria de transformação, esse ótimo desempenho da agricultura é inegavelmente uma notícia boa. Só não é melhor porque a queda do consumo global derrubou os preços das commodities, fator que deve reduzir a renda do produtor brasileiro, não inteiramente compensada pela alta do dólar. De todo modo, nessas horas, a parcela do orçamento doméstico dedicada às despesas com alimentos é a menos prejudicada aqui e lá fora.

À medida que a China se recuperar da pandemia – fato que aparentemente já começa a acontecer, quatro meses após o início do surto –, suas importações de alimentos serão reforçadas e os preços devem reagir, para melhora das exportações do Brasil. Como o presidente dos Estados Unidos, Trump, continua pressionando a China para aumentar encomendas de milho e soja aos EUA, convém relembrar a determinados ministros do presidente Bolsonaro que, por uma questão de negócios, não é interesse do Brasil hostilizar Pequim e os chineses. 

Nem todo o agronegócio está comemorando porque certos segmentos, como cana-de-açúcar, produção de flores e celulose, estão sendo duramente atingidos pela crise do coronavírus. De todo modo, o desempenho geral do agro deverá contribuir para a melhora de renda do interior do País, o que não é pouca coisa.

A primeira meia boa notícia, digamos assim, é a confirmação de uma inflação rastejante em março, de apenas 0,07%. Não é para sair festejando por duas razões. Primeira, porque esse número tão baixo só foi possível com a brutal quebra do consumo e da atividade econômica. Esse resultado vem carregado de muito desemprego e dor e, provavelmente, de quebra de empresas. Além disso, já ficou dito aqui em edição recente (5 de abril) que esse dado de março e possivelmente os dos dois meses seguintes conteria distorções, porque a estrutura de consumo na qual se baseiam as pesquisas de preços ficou fortemente alterada pelo isolamento da população. Basta levar em conta a forte redução de despesas das famílias com combustíveis, condução, alimentação fora de casa e serviços pessoais (cabeleireiro, manicure, etc.).

Parece inevitável que a inflação de 2020 caia abaixo dos 3%. Como dá para aferir pelo Boletim Focus, do Banco Central, para a variação do IPCA, o mercado na semana passada já cravava projeção de 2,72%. É preciso ver até que ponto esse mergulho da inflação engatilhará outra queda dos juros básicos.

Finalmente, a segunda notícia boa – mas só em parte. Desta vez houve acordo na Opep+. O corte da oferta de óleo será de 10 milhões de barris diários, cerca de 10% da produção mundial do ano passado. Foi a maior redução da oferta obtida até agora. Mas os analistas entenderam que será insuficiente para estabilizar o mercado. A própria Opep reconhece que a pandemia provocou a “evaporação” de 15 milhões de barris diários. A partir desse diagnóstico, conclui-se que continuam fluindo para o mercado 5 milhões de barris diários a mais do que vem escoando para o consumo, sem levar em conta os estoques já existentes. 

Se o acordo da Opep+ for observado, o equilíbrio do mercado vai depender agora da recuperação econômica dos grandes consumidores mundiais, especialmente da China. E de que boa parte dos produtores, especialmente os de óleo de xisto, se mantenha alijada do mercado, se não conseguir comprimir ainda mais os custos.

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