VACA LOUCA PÕE CIDADE SOB PACTO DO SILÊNCIO

O caso da vaca louca virou tabu na pequena Sertanópolis, de 15.638 habitantes, na região de Londrina, a 450 km de Curitiba. Desde que foi confirmada, no último dia 6, a presença do agente da doença em amostras colhidas em 2010, as lideranças locais mantêm um pacto de silêncio sobre o episódio. O prefeito Reinaldo Ramos Reis (PSDB) deixou a cidade sem atender a reportagem. O presidente da Câmara, José Rogério (PTB), também se esquivou. Único a falar, o diretor de Agricultura e Meio Ambiente, Paulo Fernando Rigo, disse que a população não acredita na doença. "Eu mesmo tenho dúvida sobre o que aconteceu, só sei que não há risco porque foi um caso isolado e, em dois anos, não apareceu mais nada."

JOSÉ MARIA TOMAZELA, ENVIADO ESPECIAL / SERTANÓPOLIS (PR), O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h08

Os informes da rádio Sertão FM, única da cidade, referem-se ao caso como boato. O locutor diz à população que pode continuar comendo carne, pois não há risco. O diretor é também funcionário do matadouro, o magarefe Elvis dos Santos, para quem o caso de vaca louca não existiu. "Está confirmado que o animal não desenvolveu a doença, portanto não poderia transmitir. Se não se pode afirmar que seja um caso de vaca louca, estamos diante de boatos." O presidente do Sindicato Rural Patronal, Antonio Osvaldo Terassi, tem a mesma opinião. "Esse diagnóstico é estranho, pois a vaca morreu com sintoma de raiva. Como se explica a demora de dois anos para ter o resultado?"

O boato, diz, serviu para desencadear uma guerra comercial que interessa a países importadores. "O preço do boi vai cair e vai arrastar o frango e o porco. Vai ser ruim para o Brasil." Se depender dos sertanopolenses, o consumo de carne continuará normal. O corretor de imóveis Itamar da Silva continua fazendo churrasco duas vezes por semana. "Não vou mudar, foi uma coisa de 2010 e ninguém ficou doente." A doméstica Eliane Herculano Silva diz que o patrão comentou sobre o caso, mas continua pedindo bife acebolado no almoço. "Se ele come, eu também como", disse. O gari Vicente Xavier de Oliveira, de 67 anos, virou vegetariano, mas não foi por causa da vaca louca. "O médico disse, ou corta a carne, ou você já era, mas sinto falta." A balconista Daiane Cristina de Oliveira e a recepcionista Maria Silva Guillen não tinham ouvido falar da doença. "Vaca louca aqui? Estou sabendo agora."

Exumação. A vaca que apresentou o único caso de Encefalite Espongiforme Bovina, conhecida como doença da vaca louca, registrado no Brasil teve de ser exumada para o exame. A rês de 13 anos morreu em dezembro de 2010 com suspeita de raiva e já tinha sido enterrada quando uma equipe da Vigilância Sanitária Animal foi à propriedade. A reportagem do Estado esteve sexta-feira no local em que os restos do animal estavam enterrados até serem levados pelos fiscais. A Fazenda Boa Sorte fica na bacia do Rio Couro de Boi, a 22 km da área urbana de Sertanópolis, no norte do Paraná.

A propriedade, sua localização e proprietário vinham sendo mantidos em sigilo pelas autoridades sanitárias. A dona, Célia Almeida, não quis falar com a reportagem alegando que não tinha sido informada oficialmente da doença. "Não sei de nada, ninguém ainda me notificou. Como vou saber se foi a minha vaca?", questionou. O administrador Wilson José Cardoso, de 48 anos, que está na propriedade desde 1994, contou que a vaca, identificada pelo número 30, era considerada velha e teve morte súbita. "Suspeitamos de raiva porque tem muito morcego por aqui e tinha havido um caso anterior na fazenda." Como a Vigilância demorou para chegar, a carcaça foi enterrada na parte alta do pasto, área agora ocupada pela soja.

O gado era alimentado a pasto, mas as vacas recebiam suplementação com cana picada e ração. Nos últimos anos, as pastagens da fazenda vêm sendo trocadas por lavoura. A soja cobre cerca de 240 hectares, enquanto as 300 cabeças de gado ocupam 180. A propriedade é considerada entre média e grande conforme os padrões da região. A proprietária contratou profissionais para fazer o controle do gado e o manejo da parte agrícola. Os bois terminados são vendidos para frigoríficos da região, mas também já foram abatidos no Matadouro Municipal, que fornece carne para açougues da cidade. Outras fazendas próximas tiveram casos de raiva transmitida por morcegos hematófagos, que se alimentam do sangue dos animais. Algumas foram enterradas sem exames.

Desde que foi confirmada a presença do agente da doença, em 2010, as lideranças de

Sertanópolis não falam sobre o caso; o prefeito deixou a cidade sem atender a reportagem

Passos lentos

Animal morreu em 2010, mas a

confirmação de que era Encefalite Espongiforme demorou 14 meses

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