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Monica De Bolle
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Vacina e economia

Fala do presidente sobre vacina para covid-19 é perda de tempo, sobretudo ante os desafios que o País terá para imunizar a população

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 04h00

Não pretendo perder tempo ou espaço nesse artigo argumentando a favor da obrigatoriedade das vacinas, quaisquer que sejam. A vacina é um direito do cidadão, estabelecido na Constituição. Vacinas contra doenças infectocontagiosas são, também, obrigatórias, como em diversos países. A obrigatoriedade é uma questão óbvia de saúde pública e de higidez econômica: vacinas garantem a proteção não apenas daqueles que as “consomem”, como a de todos aqueles com quem possam entrar em contato. Vacinas, portanto, geram o que os economistas chamam de “externalidades positivas”, isto é, efeitos que recaem não só sobre quem é vacinado, mas sobre toda a sociedade. Portanto, a recente fala presidencial a respeito da futura vacina para covid-19 como fonte de controvérsias é perda de tempo, sobretudo ante os imensos desafios que o País terá pela frente para imunizar a população quando a vacina para covid – ou as vacinas, já que há várias em estágios distintos de andamento – estiver à disposição.

É de extrema importância considerar tais desafios para que se possa pensar de forma realista sobre a recuperação da economia brasileira. Não faltam economistas – incluindo o próprio ministro da Economia – a dizer que a retomada será rápida em 2021 já que teremos vacina. Muitos já aderiram à ideia de “recuperação em V” sem parar para analisar o que está em jogo. A impressão que se tem é que alguns economistas e analistas acreditam que uma vez que a vacina esteja disponível, a epidemia e suas consequências desaparecem quase da noite para o dia. Não é assim.

Consideremos, em primeiro lugar, as vacinas em estágio de ensaio clínico mais avançado. São essas as vacinas genéticas (Moderna, Pfizer), as vacinas que utilizam vetores virais (AstraZeneca/Oxford, CanSino Biologics), e as mais tradicionais de vírus desativado (Sinovac). As vacinas de origem genética injetam no paciente o RNA viral de um antígeno do Sars-CoV-2 – antígenos são moléculas virais como as proteínas. Esse RNA viral, ao ser injetado nas células do paciente inoculado, sintetiza o antígeno (a proteína) induzindo uma resposta imunológica. Os ensaios clínicos de Fase III em que estão algumas dessas vacinas têm por objetivo estabelecer eficácia, algo que ainda desconhecemos apesar dos estudos demonstrando boas respostas, ou um grau razoável de imunogenicidade. Um problema é que essas vacinas requerem armazenamento ultrarrefrigerado – a 80 graus Celsius negativos. Como têm ressaltado muitos especialistas, não temos no Brasil a capacidade para esse tipo de armazenamento, sobretudo em larguíssima escala, como seria o requerido para imunizar parcela relevante da população. Como o RNA é material genético de alta instabilidade, tanto o armazenamento quanto a distribuição estão sujeitos a desafios logísticos enormes, assim como a capacidade de transportar doses dessas vacinas país afora.

As vacinas que utilizam vetores virais modificados para carregar material genético do Sars-CoV-2 e induzir respostas imunológicas no paciente enfrentam obstáculos semelhantes. Elas também precisam ser ultrarrefrigeradas – algumas a 20 graus Celsius negativos – e requerem um grau de vigilância sanitária para garantir a sua qualidade que muitas partes do Brasil não possuem. Pensem nos nossos postos de saúde desassistidos financeiramente, e na falta de estratégias de saúde pública do governo desde o início da pandemia. O que isso significa é que mesmo a vacina da AstraZeneca/Oxford, cujo ensaio de Fase III recrutou milhares de brasileiros e brasileiras, poderá não estar disponível em quantidade suficiente para frear a epidemia de modo desejável. Ou seja, é possível – pela falta de capacidade logística – que as doses disponíveis dessa vacina no País não sejam suficientes para induzir a chamada imunidade coletiva, conceito aqui corretamente aplicado já que se refere exclusivamente à existência de uma vacina. Sem contar que, em todos esses casos, sejam as vacinas de origem genética ou as que utilizam vetores virais, passaremos ainda um bom tempo sem saber ao certo qual seu grau de eficácia. 

De acordo com diversos artigos científicos e opiniões de especialistas, não é realista pensar em eficácia de 100%. E, caso a eficácia fique abaixo de determinado limiar, digamos 70% ou 75% a depender da transmissibilidade natural do vírus, é possível que não alcancemos a imunidade coletiva. Nesse caso, a epidemia permaneceria entre nós, ainda que de forma mais atenuada.

Quando se compreende o que está em jogo com a vacina, difícil é acreditar nas retomadas excessivamente otimistas projetadas por alguns. Sobra ilusão, falta realismo. 

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

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