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Vacinação transformou o Chile em estrela da América Latina

Mudança de humor dos investidores aconteceu com o rápido avanço da imunização contra a covid-19 no país

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 04h00

A rápida vacinação contra covid-19 transformou o Chile aos olhos de investidores e analistas: de patinho feio, na virada do ano, para a estrela da América Latina com perspectiva cada vez mais animadora de crescimento econômico em 2021.

O governo chileno foi agressivo ao se antecipar e fechar contratos de compras de imunizantes contra o coronavírus em quantidades suficientes de vários laboratórios, além de eficiente na logística para garantir uma rápida vacinação.

Resultado: mais de 21% da população já recebeu a primeira dose da vacina, o que coloca o país andino entre os dez que mais vacinaram no mundo. E a meta do governo chileno é que, pelo menos, 80% da população esteja vacinada até junho, o que garantiria a chamada imunidade de rebanho. No Brasil, apenas pouco mais de 4% da população recebeu a primeira dose.

Esse avanço do programa de imunização permitiu ao governo chileno começar a afrouxar mais rapidamente as restrições à mobilidade social, acelerando a reabertura da economia. Diante disso, juntamente com a maior demanda por matérias-primas, como o cobre, do qual o Chile é o maior produtor mundial, vários economistas estão revisando para cima as suas projeções para o crescimento do PIB em 2021.

A consultoria Oxford Economics elevou de 6,1% para 6,4% a estimativa de crescimento do PIB chileno em 2021. O banco JP Morgan revisou sua previsão de expansão de 5,4% para 5,9%. Tanto a consultoria Pantheon Macroeconomics quanto o banco Itaú BBA projetam um crescimento de 6,5% do PIB chileno neste ano. E, ontem, o FMI passou a prever um crescimento de 6% do PIB chileno em 2021. 

É bom lembrar que, em razão do impacto da pandemia de covid, a economia chilena encolheu 6,1% em 2020, mas a recuperação tem sido rápida, com o PIB registrando expansão em sete dos últimos oito meses. Isso foi possível, em boa parte, porque o Congresso aprovou duas rodadas de liberação de saques dos fundos de pensão privados pelos chilenos, em quantia até 10% do patrimônio, o que minimizou o impacto da perda de renda com a pandemia, dando um impulso a setores como o comércio varejista.

Também vale mencionar que o preço do cobre já subiu mais de 15% em 2021, puxado pelo aumento das importações da China, cujo PIB foi o único a registrar crescimento positivo em 2020 entre as maiores economias mundiais. O desempenho do cobre vem limitando as perdas do peso chileno ante o dólar neste ano, em meio à turbulência da disparada das taxas de retorno dos títulos do Tesouro americano. A moeda americana acumula ganho de 3,2% em relação ao peso chileno, de 7,1% ante o peso mexicano e de 13% frente o real brasileiro.

Mas a mudança de humor aconteceu mesmo com o rápido avanço da imunização contra a covid. Uma pesquisa de opinião recente mostrou que 83% dos chilenos consideram o programa de vacinação bom ou muito bom. O índice de aprovação do presidente Sebastian Piñera subiu para 24%, ainda baixo, porém bem acima do seu menor nível, de 9%, registrados antes de a pandemia ter começado e ainda sob o calor dos violentos protestos de massa no país, deflagrados após aumento nos preços dos transportes públicos.

Aliás, era o cenário político que até o fim do ano passado deixava os analistas mais pessimistas em relação à confiança dos investidores sobre o desempenho econômico do Chile em 2021. Como reflexo dos protestos, um referendo autorizou a elaboração de uma nova constituição. No mês que vem, haverá eleição para a formação de uma assembleia constituinte.

O temor era de que a deterioração econômica, em razão da pandemia, poderia ser terreno fértil para a eleição de candidatos mais radicais que pudessem retroceder o caráter liberal e favorável ao ambiente de negócios da atual Carta, além de aumentar o tamanho do Estado.

Outro evento importantíssimo acontecerá em novembro: a eleição presidencial. Piñera, de centro-direita, não poderá concorrer à reeleição. E o medo também era de que candidatos mais à esquerda e considerados radicais pudessem vencer o pleito, levando a uma fuga de investidores.

Esse cenário ainda pode ocorrer. Até porque os protestos contra a desigualdade social estão frescos na memória dos chilenos. Mas a rápida recuperação econômica proporcionada pelo avanço acelerado da vacinação contra a covid reduziu o desconforto dos investidores e analistas com uma possível turbulência gerada pelo calendário eleitoral. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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