Vagas para jovens não acompanham alta do emprego no País

Fatia de pessoas de 16 a 24 anos empregadas diminui em cinco anos, em movimento inverso ao do emprego total

Jacqueline Farid, da Agência Estado,

17 de junho de 2008 | 12h43

A geração de emprego para os jovens nas grandes cidades brasileiras permanece um desafio, a despeito das evoluções ocorridas no mercado de trabalho nos últimos cinco anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o porcentual de jovens na faixa de 16 a 24 anos - idade-alvo do programa Primeiro Emprego, criado pelo governo Lula em 2003 e desmobilizado no final de 2007 - no total de ocupados nas seis principais regiões metropolitanas do País era de 18,7% em abril de 2003 e não ultrapassava 17,1% em abril de 2008. A situação não era diferente em São Paulo, principal região metropolitana, onde a fatia dos jovens no total de ocupados, no período, recuou de 20,2% para 18,7%. Os dados do IBGE demonstram que, dos 2,9 milhões de trabalhadores que passaram a integrar a população ocupada entre abril de 2003 e abril de 2008, apenas 150 mil eram representantes da população mais jovem. De acordo com as estatísticas, o ritmo de expansão do número de jovens ocupados foi quatro vezes menor do que o crescimento da ocupação total nas seis regiões. Enquanto o total de ocupados subiu 16% neste período de cinco anos, de 18,5 milhões para 21,4 milhões, o número de ocupados na faixa etária de 16 a 24 anos aumentou quatro vezes menos no período, ou apenas 4,3%, passando de 3,45 milhões para 3,6 milhões de pessoas. Crescimento da população O gerente da pesquisa mensal de emprego do IBGE, Cimar Azeredo, disse que os dados relativos ao emprego dos jovens refletem o menor crescimento da população nessa faixa etária nos últimos anos e a dificuldade, gerada pela inexperiência e falta de especialização, de inserção no mercado de trabalho. De fato, não é possível avaliar os resultados estampados pelo instituto sem levar em conta que a fatia dos jovens na População em Idade Ativa (PIA, acima de 10 anos de idade) no País está crescendo em patamar muito abaixo do índice geral. Isso ocorre, segundo Azeredo, devido à mudança na estrutura demográfica brasileira, por faixa etária, com aumento do número de idosos e desaceleração na expansão da população com idade abaixo de 24 anos. Enquanto, nas seis regiões pesquisadas - São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador -, a PIA em geral cresceu 10,6% entre abril de 2003 e abril de 2008 (de 37,15 milhões para 41,11 milhões), a PIA da faixa etária de 16 a 24 anos aumentou apenas 1,2% no período, de 7,30 milhões para 7,39 milhões. Apesar dessa influência da mudança na pirâmide etária, Azeredo admite que a recuperação mais lenta na ocupação dos jovens está vinculada, sobretudo, à dificuldade desse grupo de conseguir emprego em um mercado de trabalho cada vez mais marcado pela exigência de experiência e especialização. Questão estrutural Concorda com ele o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Henrique Corseuil. Segundo ele, a dificuldade dos jovens de conseguir uma vaga no mercado é uma questão estrutural e anterior ao atual governo, que lançou o já extinto programa Primeiro Emprego. Corseuil avalia que será preciso uma investigação ampla para compreender os reais motivos que estão impedindo a inserção da população jovem no grupo dos ocupados, mas arrisca que eles estejam relacionados à questão da experiência e da especialização. "A questão da qualificação em geral afeta muito a população jovem, seja por experiência ou escolaridade, formação e especialização", afirmou. Ele lembra que a qualificação está muito vinculada à ocupação na atualidade e, por isso, o desemprego está diretamente relacionado à qualificação. "O fato de o sistema universitário estar expandindo é uma possível solução, mas demora", disse, acrescentando que "talvez um programa muito bem bolado possa facilitar essa transição, mas normalmente essas questões estruturais levam tempo para mudar". Primeiro Emprego A análise é comprovada pela trajetória do Primeiro Emprego. Lançado em julho de 2003 com estardalhaço pelo governo, foi assumido como fracassado no ano passado, já que dados como os registrados pelo IBGE mostram a ineficiência da iniciativa. O mote do programa era conceder incentivos para empresas que contratassem jovens na faixa etária de 16 a 24 anos. No segundo semestre do ano passado o governo anunciou que o Primeiro Emprego seria substituído por outros programas. Segundo Azeredo, essas iniciativas também têm sido insuficientes, devido especialmente à dificuldade de resolver os problemas em termos regionais. "É realmente difícil encontrar o caminho", afirmou. Apesar da dificuldade de implementar esse tipo de programa, Azeredo acredita que essa é uma das possíveis soluções para o problema do desemprego entre os jovens. Outra iniciativa seria, segundo ele, a disseminação de mais cursos técnicos de formação. Além da questão da necessidade de experiência e qualificação, o técnico do IBGE também cita o aumento do emprego para a população mais velha. Segundo dados do instituto, a fatia dos ocupados com 50 anos ou mais no total de ocupados nas seis principais regiões metropolitanas subiu de 16,5% em abril de 2003 para 19,6% em abril de 2008. "Há uma parte da população que tende a ficar mais tempo no mercado de trabalho, para se manter ativa ou complementar a aposentadoria, e isso tira algumas vagas dos jovens", disse Azeredo. É nesse ponto que está, para Corseuil, um dos principais desafios de programas de emprego para jovens. Para ele, esse tipo de iniciativa deve beneficiá-los sem, entretanto, prejudicar aqueles que já têm experiência e emprego. Desafio O desafio é grande já que, segundo os dados do IBGE, enquanto cai a participação dos trabalhadores de 16 a 24 anos no total de ocupados, cresce a fatia de jovens entre os desocupados. Em abril de 2003, os desocupados dessa faixa etária no total das seis regiões eram 43,5% do total e, em 2008, já chegavam a 44,5%. Corseuil citou dados especificamente para a faixa etária de 18 a 24 anos (coletados na pesquisa do IBGE) e que revelam que enquanto a taxa de desemprego anual média nas seis regiões, para todos os ocupados, recuou de 12,3% em 2003 para 9,4% em 2007, a taxa desses jovens também recuou (de 23,4% para 20,3%), mas manteve-se em patamar muito mais elevado do que a média.

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