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Vai acelerar?

Projeções passadas indicam que pode haver boas surpresas no PIB após recessões

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2018 | 05h00

Depois da enorme recessão do segundo trimestre de 2014 até o fim de 2016, uma questão importante é a velocidade da recuperação. Recentemente, alguns economistas têm dito que esta é uma das mais lentas retomadas da história econômica brasileira documentada, ou até mesmo “a” mais lenta.

O governo discorda, como explica uma fonte do Executivo. É certo que, nesse tipo de discussão, cada um puxa a brasa para sua sardinha em termos de definições e metodologias. Mas vale a pena entender os argumentos da fonte governista.

O passo inicial é a definição simples de recessão como dois ou mais trimestres seguidos de queda do PIB. Tomando-se as oito recessões anteriores a essa última, identificaram-se os “vales” (isto é, o trimestre em que o PIB foi menor) de cada uma, que ocorreram em diferentes trimestres de 1981, 1983, 1988, 1990, 1995, 2001, 2003 e 2009.

Feito isso, calculou-se o crescimento nos quatro trimestres até o vale (que está incluído) e os quatro trimestres posteriores (que não incluem o vale). O mesmo foi realizado para a recessão de 2014-2016, cujo vale é o último trimestre de 2016. Nesse caso, utilizaram-se dados reais do crescimento até o vale, e a expectativa do mercado para o crescimento posterior (que coincide com 2017, ano para o qual três PIBs trimestrais já são conhecidos).

Foram feitas comparações, entre as diversas recessões, do crescimento da economia no ano (isto é, nos quatro trimestres) posterior ao vale; e da mudança de ritmo entre o ano anterior e o posterior. Um exemplo deste segundo caso: no ano até o quarto trimestre de 1988, vale da recessão, o PIB recuou 0,06%. No ano posterior, cresceu 3,13%. A mudança de ritmo foi de 3,19 pontos porcentuais (pp).

A constatação inicial é que a mudança de ritmo entre antes e depois do vale na recessão de 2014/16 é de 4,44 pp: de -3,47% para +0,97%, bem superior à mudança média de todas as recessões, que foi de 0,30 pp. É verdade que as recessões com quedas profundas até o vale tiveram mudanças de ritmo maiores, mas o ocorrido em 2016 está em linha com o que aconteceu nos dois episódios anteriores deste tipo: 1981 e 1993.

Em termos do crescimento no ano posterior ao vale, a projeção para a recessão de 2014/16, de 0,97%, está abaixo da média de 1,38% das oito recessões anteriores. Mas a diferença não é dramática – esse indicador foi ainda pior em 1981 e 1995, e quase igual em 1990. A saída da recente recessão, por esse critério, não é brilhante, mas tampouco calamitosa.

Outro argumento é o de que os analistas em média erram para menos suas projeções quando há saídas de recessões, pelo apego aos dados do passado recente. Tomando-se as recessões de 2001, 2003 e 2009 (o sistema Focus de coleta de expectativas pelo Banco Central começou a funcionar em 2000), o mercado, em termos medianos, previu que o crescimento no ano pós-vale seria 2,99 pp abaixo do que efetivamente ocorreu.

O problema desse argumento é que o ano pós-vale da última recessão é 2017, e, portanto, o exercício não diz muito sobre 2018. A fonte do governo explica que as projeções trimestrais de PIB do Focus não permitem encadear previsões de períodos de dois anos à frente. Ainda assim, o exercício indicaria que fases pós-recessão são propensas a boas surpresas no crescimento.

Outro fator de animação governista é que a alavancagem das empresas (dívida em relação ao Ebitda, uma medida de lucratividade), depois de ter subido de aproximadamente 2,5 em 2013 para mais de 5 ao fim de 2015, já voltou para perto de 2,5.

O governo considera que é preciso reconstruir reputação em termos de projeções econômicas, depois de todas as previsões fora da realidade na gestão de Dilma. Por isso, está quieto com seus 3% de crescimento para 2018. Mas há em Brasília quem aposte de forma discreta que pode ser significativamente mais do que isso.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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